Por Antenor Demeterco Junior (*)

José Dirceu no fundo do xilindró transformou-se em escritor, e fez-se crítico, de entre diversos assuntos, de programações de televisão: para ele, ouvir a voz do Faustão e assistir o Fantástico constituía uma “tortura” dominical.
Nos telejornais os apresentadores, segundo ele, “opinam”, repetem e passam a opinião de seus patrões, “dos donos do poder de informar e formar no Brasil”.
Tudo seria um “embuste” e uma “farsa” (cf. p. 17).
IMPRENSA
Pobre liberdade de imprensa pelas suas concepções.
Dirceu despreza outra instituição da vida democrática, a magistratura brasileira, em especial quando seus membros lutam para não serem focados como meros funcionários comuns (nada contra estes): refere-se a ela como “a casta”, “a corporação legislando em causa própria”.
AS ADVERSIDADES
Juízes, para quem não sabe, enfrentam adversidades não comuns para outros agentes públicos no desempenho de suas funções: nas fronteiras convivem com corpos estraçalhados por traficantes rivais, nas cidades com administrações corruptas a serem punidas, nas varas de família vivem sofridos dramas alheios, choradeiras que maculam psicologicamente os operadores do Direito, e assim por diante.
Muitas vezes são vítimas de ameaças anônimas, e mesmo de represálias infames (há casos de assassinatos), pelo simples fato de cumprirem seus deveres.
CONTRA O MP
Dirceu desanca também contra o Ministério Público que assumiu “a dupla e ilegal função de investigar e acusar em nome do Estado e do povo, só faltando julgar” (cf. p. 224).
Foram concedidos poderes, em “uma das mais graves decisões do STF”, uma “aberração”, para uma categoria plena de “regalias e privilégios”, inclusive salariais.
Advoga Dirceu pela passividade do órgão.
SÓ INVESTIGANDO
Sem investigação em profundidade não se chega ao âmago sombrio do crime organizado e seus poderes no interior das penitenciárias.
Dirceu faz questão de não se conscientizar que promotores e juízes tem funções diferenciadas, constituem verdadeiras elites funcionais, cujas vidas de estudo e enfrentamentos não podem ser desprezadas.
Quando ataca os ganhos destas duas instituições esquece-se de suas recheadas contas bancárias sob zeloso exame das mesmas.
CUBA LIVRE?
Nosso memorialista surpreendentemente considera Cuba “o primeiro território livre da América” (cf. p. 97), afirmação esta que em qualquer ambiente sério motivaria uma gargalhada universal.
A infeliz ilha é hoje um território sombrio governado por um grupo decadente, com uma economia voltada à exportação: décadas e décadas de socialismo ditatorial (melhor, fascismo de esquerda) impuseram apenas a exportação de charutos e de cana-de-açúcar.
Antes a exportação era de revolucionários zerófilos, e hoje de médicos sub-remunerados e de competência duvidosa.
O grande êxito do regime cubano foi exportar uma progressista comunidade radicada em Miami desde a deflagração de sua revolução publicitária.
CORRUPÇÃO GERAL
A corrupção generalizada, pela qual Dirceu foi condenado como partícipe, é poderoso instrumento de subversão, pois implica no enfraquecimento da lei de modo generalizado, cujo o respeito é um dos pilares da Democracia universal.
Revolucionários latino-americanos já não se embrenham em focos nos matões, preferem refinados salões e contas bancárias recheadas, com absoluta insensibilidade pela deplorável situação econômica de milhões de proletários.
(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, advogado, desembargador aposentado e estudioso do Século 20.

