Por Eloi Zanetti

Kairós é o momento da vida quando a porta do tempo se abre e permite mudanças radicais em nossa trajetória. É um instante preciso e fugaz que nos apresenta novas oportunidades. Este momento não acontece por acaso – é fruto de longa preparação e acurada prontidão, pois não se pode perder a hora mágica da sua aparição.
A história está repleta de exemplos de artistas que mudaram completamente o rumo das suas carreiras. Ray Charles teve o seu momento de kairós quando seu mentor e empresário Ahmed Ertegu o fez compor e cantar Mess Around e foi a partir desse momento que Ray Charles virou Ray Charles.
DANTE SE REINVENTA
Acompanho de perto a reinvenção de dois artistas amigos, um deles o Dante Mendonza que há pouco tempo começou a desenhar aquarelas – talvez a mais difícil técnica das artes plásticas.
Foi a partir de um curso em Paris que Dante se descobriu como um exímio aquarelista. Como exercício prático, seu professor levava o grupo para retratar as ruas da Cidade Luz.
Na volta para Curitiba, realizou uma mostra na Aliança Francesa e não parou mais. Já são várias as cidades e paisagens retratadas por Dante.
Com o passar do tempo ele refina e dá cada vez mais leveza às suas obras.
MÚLTIPLAS PAISAGENS
Além da nossa Curitiba e da sua Nova Trento, Dante viaja para vários países, hospeda-se por uns dois meses em alguma cidade e realiza o novo oficio de aquarelista. Espanha e Itália são os seus locais preferidos. O multitarefa Dante tem passagem por alguns jornais onde fazia cartuns e mais tarde crônicas maravilhosas, histórias cheias de sutileza e inteligência.
INTERNET: FUNDAMENTAL
A metamorfose de Dante começou quando ele percebeu que não havia mais muitos caminhos para o humor gráfico e fugiu do estigma de alguns velhos publicitários que não conseguiram se adaptar aos novos tempos tecnológicos e montaram pizzarias. São Paulo está cheio deles.
DE CIMA PARA BAIXO
Um dia, andando pelas calçadas de Curitiba, Rettamozo teve a ideia de pintar o que via de cima.
Nascia, como ele diz “O ponto de vista da torre”. Calçadas, jardins, gatos, cachorros, crianças, traços de rodas de bicicleta, terra e flores – tudo vira arte nas mãos desse gaúcho que já nas décadas de 60/70 agitava o mundo cultural curitibano.
Retta tem um olhar sério para as coisas mais insignificantes: “O importante está no chão, onde a gente pisa”, diz ele com a propriedade dos bons observadores.
IRREVERENTE CRIADOR
Retta é um faz tudo: poeta, compositor, escritor e artista plástico.
A irreverência é o mote das suas criações, pois sempre tem alguma provocação no que faz e um recado sutilmente escondido. Essa mudança de pintar o que se vê de cima foi um marco na criação das suas obras.
Hoje, de forma generosa, ele divide o seu tempo entre grandes murais e performances com crianças e grupos de pintura, como faz com uma turma em Itajaí. Bom letrista, sabe lidar com as palavras de forma lúdica. Brinca com elas de maneira tão espontânea e divertida que elas lhe obedecem como uma criança obedece a um professor apaixonado pelo seu fazer – brincando junto.
CORAGEM DE MUDAR
Tanto o Dante, quanto o Retta souberam redirecionar suas carreiras no momento certo e hoje desfrutam o sucesso de uma vida voltada à criatividade e à mudança. Steve Jobs, um dos gênios mais criativos dos últimos tempos, dizia que admirava aqueles que tinham coragem de largar tudo que faziam e se reinventarem. Seus exemplos eram Picasso e Bob Dylan.
(colaboração: Eloi Zanetti)








