
Meu leitor, FCH, 42, tem boa formação universitária, mas muito pouco interesse em áreas da Antropologia e Sociologia. O mundo dele envolve outras preocupações imediatas, tal como a higidez física do ser humano, tema de sua preferência e estudos.
No entanto, nesta sexta, 5, ele me surpreendeu, ao cravar: “O Bolsonaro cresceu mesmo foi a partir do apoio do Edir Macedo e outros donos de igrejas. Foi aí que ele deslanchou”, observou o profissional de Educação Física, um não eleitor do capitão.
Acredito que vote no Alckmin e Cida. É um equilibrado conservador, avesso aos radicais do PT e do PSL e seus aliados.
AS FONTES DA MUDANÇA
A constatação de FCH, linear, não foi – nem poderia ir – às causas do poder das igrejas, ao porquê da forte voz de comando que o mundo evangélico assumiu hoje no Brasil.
Como a maioria absoluta dos brasileiros que tentam exegeses políticas, o leitor FCH não aprofunda a análise do fenômeno religioso.
Nem teria ferramentas para tanto.
Mas corretamente entende que a religião “tem muita força nestas eleições”.
Os evangélicos pentecostais e neopentecostais, sabe-se, estariam maciçamente com o capitão.
Parece a ele – como a média de analistas do assunto -, muitos deles jornalistas supostamente bem qualificados -, que os antigamente chamados de “glórias”, surgiram do nada.
Coisa de geração espontânea?
MUDOU DE MATRIZES
Não. Apenas o Brasil deste século 21 deixa bem claro que mudou de matrizes religiosas. Não mais prevalece a outrora hegemônica palavra da Igreja Católica Apostólica Romana que, para o bem ou para o mal (eu acredito que mais para o bem) foi fator decisivo para o nascimento da nacionalidade, em 1500, a partir da primeira missa, com frei Henrique de Coimbra.
Tempos de “Roma locuta, causa finita”. Era o falou, está falado.
Identifico o grande peso eleitoral da Igreja Católica como permanecendo até começo dos 1980.
COM JOÃO PAULO II

Lembram-se do poder de atração que João Paulo II, líder da Igreja, demonstrou no Brasil, arrebatando multidões no ano de 1980?
Nunca mais a Igreja mostrou tanto poder de aglutinação. Se bem que a influência eleitoral, fortíssima até nos anos 1970 em solo brasilis, até então era considerado “natural”.
Eram dias em que os Cursilhos da Cristandade imperavam, controlavam a formação de elites econômicas, culturais e também lideranças políticas.
Quase nenhum político “sensato” deixava de ouvir a palavra da Igreja nem desprezava a orientação dos vigários e párocos.
LEC DEU ORDENS
Antes disso, a LEC, Liga Eleitoral Católica (assunto de que se ocupou Renato Augusto Carneiro Junior, diretor do Museu Paranaense, em livro que analisa a política paranaense em tempos de Ney Braga) ajudava a definir quem merecia ganhar eleições.
PODER DE VETO
A LEC tinha poder de vetar candidatos e era acatada por multidões.
Bastava, por exemplo, alguém ser a favor do divórcio para ser anatematizado.
Getúlio Vargas, por exemplo, caudilho e maior líder popular que o país já teve, nunca se afastou do apoio e do aconselhamento do cardeal Leme, do Rio.
JK, Jango e até os generais ditadores sempre escutaram a Igreja.
Pouco a acataram, é verdade.
No caso dos militares, foi uma interlocução permeada de conflitos com uma hierarquia católica comandada por bispos da Teologia da Libertação, como Dom Aloísio Lorscheider e cardeal Paulo Arns.
Às vezes, os encontros poderiam parecer diálogos de surdos, exceção aos de bispos como o cardeal Eugênio Salles, defensor acendrado dos direitos humanos (acolheu muitos perseguidos, no Rio), que faziam milagres em resultados com os ditadores.
GEISEL, UM HISTÓRICO
Neste universo dos generais presidentes, membro de uma igreja histórica, a Luterana Sinodal, foi Ernesto Geisel. Mas o primeiro a dar mostras bem claras de que simpatizava com as lideranças evangélicas que se alinhavam foi o presidente João Figueiredo. Ele entregou a primeira concessão de televisão a uma associação religiosa evangélica, liderada pelo pastor curitibano Nilson Fanini, que ganhou canal televisivo (TV Rio) no RJ.
GOVERNO CANET JR.
No Paraná, o excelente governo de Jayme Canet Neto foi marcado pela influência da Igreja: me lembro que os principais quadros do governo “tinham” de passar por dois endereços quase obrigatórios de então: os Cursilhos da Cristandade e/ou a ADESG (cursos da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra).
PRIMEIROS ESTUDOS
Os primeiros estudos sérios (e acadêmicos) sobre a influência evangélica no Brasil foram feitas por Beatriz Souza (“Uma teoria de salvação”).
Outros autores andaram pelas sendas semelhantes, como Francisco Cartaxo, explorando questões de religiosidade popular, Reginaldo Prandi, Regina Novaes, padre Oscar Beozzo, Cândido Procópio de Camargo, sociólogo Ricardo Mariano, Flávio Pierucci…
FUGA DO CAMPO
O certo e que o desenraizamento de multidões – evadidas do campo e de suas raízes de amizades e solidariedade -, é a explicação mais plausível para o grande avanço protestante no Brasil.
O fenômeno foi muito anotado no começo dos 1960, acelerando-se nos 1980. Pois sem as certezas, a segurança das vizinhanças e as marcas de solidariedade da vida rural, o evadido do campo começou a engrossar as periferias das grandes cidades. E foi colocado à parte do processo de urbanização dentro da dignidade que esperavam.
Sem acesso aos santuários, sem apoio dos padres e das rezas centenárias, essa multidão foi criando novos pontos de adoração e fraternidades, instalando salas de culto e criando igrejas, além de filiar-se a denominações populares já existentes.
Adeus ao catolicismo…
OS PRIMEIROS
Esclareça-se: os “glórias” nasceram no começo do século 20, em Belém do Pará (Assembleia de Deus) e Santo Antonio da Platina e São Paulo (com a Congregação Cristã do Brasil).
LIDERANÇAS SUBSTITUÍDAS
Se o êxodo rural explica boa parte do crescimento do protestantismo evangélico e popular, é forçoso reconhecer que a Igreja Católica não conseguiu atender à demanda da nova realidade urbana. Não tinha nem infraestrutura física nem quadros para responder às multidões que, nas cidades verticais, foram formando pontos de acolhimento humano e espiritual. E também de suporte político, gerando lideranças especialmente para o legislativo.
Aurélio Vianna foi deputado federal por Alagoas, batista, um dos primeiros a ganhar notoriedade nacional, com Rui Ramo, do PTB do RS. No Paraná, a família Losso (pai e 3 filhós) se revezou por anos no legislativo. E no Norte do Paraná, Olavo Garcia foi dos primeiros deputados evangélicos à AL do Estado.
QUEM FICA COM POBRES?
Muito se repete que a Igreja Católica, ao “optar pelos pobres”, os teria, na verdade, deixado para os evangélicos. Traduzindo: de tanto se preocupar com questões sociológicas, “tomando lugar da fé”, a Igreja teria garantido a fidelidade das multidões aos chamados crentes que só queriam se alimentar de verdades espirituais.
Há outras correntes que vão mais longe na análise, dizendo que a Igreja, no Brasil, por exemplo, teria ficado “apenas com as questões sociais levantadas pelo Concílio Vaticano II”.
Assunto para futuras abordagens deste espaço.
(SEGUE)
