domingo, 28 junho, 2026
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DALTON 93: O VAMPIRO CONTRA CURITIBA

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Dalton Trevisan
Dalton Trevisan

Escrever sobre Dalton Trevisan, sexta, 15, parece que serviu para aguçar os chatotorix de plantão. Leitora tachou a coluna de “autoindulgente” por não ter dado nomes aos bois a quem quer tirar lasquinha do escritor em vida. Uma aberração por si só. Quem quer fofoca vá à “Caras”, à “Quem”, a “Contigo”. De minha parte, já me surpreende ouvir jornalistas – e não poucos – dizendo que Dalton Trevisan se repete a cada livro. Quaquaquá. É gente que leu “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, e achou um “must”. Daí fica fácil não ver diferença entre “Cemitério de Elefantes” e “Rita Ritinha Ritona”. E pare por aí, porque não vou me pôr também a dedilhar a harpa do trovador desafinado de Uderzo e Gosciny.

ROSA ROSINHA

Ivan Lessa que, em 1997, na Veja, recordou-se da epifania que lhe causou o primeiro livro de contos de Dalton – “Novelas Nada Exemplares” – provavelmente encarnaria Edélsio Tavares e partiria para o prêmio “rosa rosinha”, entalando a violácea nos profanadores do escritor que cruzou o noventão da vida.

CASO DE ABDUÇÃO

Mais surpreendente foi a história que vazou por aí, ainda no rastro do comentário da coluna, de que advogada do Tribunal de Contas do Paraná (poupemos a ela o vexame) nunca lera nenhum livro de Dalton Trevisan e sequer ouvira falar dele. É caso de abdução. Eu acredito.

CHUTE NOS FUNDILHOS

Para os que teimam em enxergar Dalton como um prosador do eterno confronto doméstico entre Joões e Marias melhor ler sua obra vasta e tratar. Há alguns anos, a peça “O Vampiro Contra Curitiba” deu uma canja sobre o que ela significa em uma seleção dramatizada de 20 contos, aprovadas e carimbadas pelo autor. Em comum, o sarrafo na capital ecológica. Imperdível desde então, e disponível no Youtube, o recitoso de “Curitiba Revisitada”, a cargo do ator Marino Jr, que foi escrito especialmente para o aniversário dos 300 anos da capital e que é, nu e cru, um chute nos fundilhos dos administradores (“O que fizeste com minha cidade, ó Cara”).

TUNDAS À CAPITAL

Segue-se um encadeamento de tundas à capital. Na sátira ao sotaque curitiboca em “Pinga”, na conjunção de pedofilia e meninas em flor em “Ezequiel”, no cômico “Almoço de Natal”, que descreve a impagável paixão de um meninote por uma galinha, e até no poético “Vestido Vermelho”, em que a atriz Mônia Sartor interpreta, com carga dramática invejável, um tema tão caro ao autor: a solidão e o desamor.

FRESTADOR

É o caso de indagar se, com tanto vigor literário demonstrado, carece um parasita intrometer-se na vida reservadíssima de Dalton e nela tentar sugar a rotina besta de qualquer artista. Leitor que se preze não quer saber o que Dalton come, o que bebe, a que horas dorme. Basta a surpresa contida em cada livro que o frestador publica.

Sai hiena papuda!

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