Por Claudia Lamego
Em 2014, os brasileiros elegeram o Congresso mais conservador do país desde 1964. Em 2016, a presidente Dilma Rousseff perdeu o mandato, num processo liderado, na Câmara dos Deputados, pelo político evangélico Eduardo Cunha. No mesmo ano, Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, foi eleito no Rio de Janeiro, uma das maiores e mais influentes cidades do país. Para a jornalista Andréa Dip, o fio que liga esses eventos é o projeto de poder político da bancada evangélica em Brasília, que ela descreveu na reportagem “Os pastores do Congresso” e agora amplia no livro “Em nome de quem”, lançado pela Civilização Brasileira.
Continue lendo a entrevista dada pela Andrea Dip à Cláudia Lamego:

BANCADA GOSPEL
A bancada evangélica, apesar de heterogênea, tem se movimentado de forma coesa nestes assuntos e esteve totalmente alinhada com as ideias e partidos de direita e extrema direita. Isso sem mencionar todos os projetos de leis que pretendem acabar de vez com taxas e impostos para igrejas e seus líderes, inclusive sobre produtos do segmento Gospel.
Acredito que se em 2018 seguirmos nessa toada, esses projetos que retrocedem imensamente nos direitos de toda a população avançarão e puxarão outros ainda piores, mais violentos. Só como exemplo, ouvi de um deputado pastor muito importante na casa, que pra ele a redução da maioridade penal deveria ser ainda maior, não para 16, mas para 13 anos.
No livro, você mostra que a narrativa sobre a “ideologia de gênero” foi forjada por militantes pró-vida, membros da igreja católica e também pelos evangélicos. Esses últimos ajudaram, com seus canais de rádio e TV e perfis nas redes sociais, a disseminá-la de forma mais ruidosa, dando a sensação de que são, sozinhos, os criadores desse discurso. Políticos como Jair Bolsonaro têm se beneficiado desse tema, que seguramente deverá ser um dos importantes nas campanhas políticas a partir de julho. Como fazer frente a esse movimento?
R – A grande questão é que a “ideologia de gênero em si e tudo que se criou nesse sentido é um grande delírio, uma teoria da conspiração gigantesca que não se conecta com a realidade. Foi criada a partir de informações falsas e no Brasil, disseminada a partir de informações e cartilhas falsas, para assustar pais e mães e através do medo conseguir apoio da população. Quando na realidade o que se pretendia com a inclusão das pautas de gênero nos planos de educação era falar de homofobia (que mata tantas pessoas no país), misoginia (que mata tantas mulheres todos os dias no país) etc. Então, creio que o primeiro passo seria desmistificar essa questão, em uma conversa franca com a população, explicar as diferenças entre esses olhares. Mas para isso seria necessária uma disponibilidade ao diálogo, que não me parece possível nos tempos atuais. Temos vivido um momento de achatamento das ideias muito propício para a disseminação de informações falsas.
Temos visto não só aqui, como no mundo inteiro, uma onda conservadora reagir a anos de governos de esquerda ou com pautas mais progressistas.
No Brasil, após os protestos de 2013 o povo elegeu um dos congressos mais conservadores de sua história. Você acha que a crise econômica, a perda de direitos trabalhistas e o agravamento da violência nas grandes cidades podem ser itens que sirvam como uma ponte para o diálogo entre os políticos mais à esquerda com essa massa de evangélicos que hoje está alinhada mais à direita no país?
R – Não tenho certeza se tudo isso serve como ponte para o diálogo entre a esquerda e a população, até porque de uma forma enviesada a direita se apropriou justamente destes elementos para se aproximar dos evangélicos.
Acho que houve, como trazem alguns entrevistados no livro, um abandono do trabalho de base por parte da esquerda desde o governo Lula.
ERRO DA ESQUERDA
A reflexão que fazem é a de que a esquerda passou a mirar a disputa institucional e a disputa de poder dentro das casas legislativas, o que me parece necessário e legítimo, mas acabou abandonando o trabalho de resistência e o trabalho de base nas periferias e comunidades mais pobres do país. Essa lacuna acabou sendo preenchida em grande parte pelas igrejas evangélicas e os partidos mais à direita viram nessa potência uma grande oportunidade de se aproximar às camadas mais pobres da população, principalmente através de pautas conservadoras no campo moral.
A OPÇÃO À DIREITA
A direita encampou a luta contra a descriminalização do aborto e da maconha, por exemplo, se colocou como representante do projeto da Escola Sem Partido e contra direitos da população LGBT. É um fato que no Congresso, a imensa maioria dos deputados e senadores da bancada evangélica estão em partidos de direita ou extrema-direita, então essas pautas foram se misturando o que, no campo político não faz exatamente sentido já que a direita historicamente nunca defendeu os direitos dos mais pobres no Brasil. Ao mesmo tempo, a base do MTST, por exemplo, que é um movimento popular que se identifica com as pautas da esquerda, é composta por evangélicos.
(CONTINUA)
