
O jurista Modesto Carvalhosa desembarca nesta quinta-feira (7), em Curitiba, pronto a defender com unhas e dentes o voto impresso e criticar a apuração secreta que ora se faz por meios eletrônicos.
ENRABICHADOS
Carvalhosa falará no Graciosa Country Club, ao lado dos juristas René Ariel Dotti e Miguel Reale Jr., a um público que boceja ante a possibilidade de comparecer a uma cabine de votação por todos os motivos do mundo, inclusive o de que colaborou em alguma medida, em anos recentes, com o jogo de cartas marcada. Agora, desiludidos, enrabicham-se.
EM 60 PARCELAS
O tema não é bem a apuração secreta nem o voto papel. Carvalhosa e seus pares vão falar de leniência premiada, um brinde que a Justiça vem dando às empresas que revelam suas mutretas públicas com dinheiro público e se dispõem a devolvê-lo. Em 60 parcelas a perder de vista.
CANETAS VERMELHAS
Carvalhosa é do tempo em que dormia-se ao lado das urnas de papel e quando a apuração começava, em ginásios lotados de mesas grandes e sólidas, os apuradores munidos apenas de canetas vermelhas para assinalar os votos brancos e nulos eram vigiados de perto por fiscais partidários. Nada mais anacrônico. Mas é o tipo de apuração que Carvalhosa aprecia. Ampla, lenta, gradual e nem sempre precisa.
CACARECO, MACACO TIÃO
Curitiba foi uma das primeiras capitais do país – senão a primeira – a adotar a urna eletrônica, em 1996, durante as eleições municipais. O prefeito eleito foi Cassio Taniguchi, então no PDT. Reclamou-se, à época, do fim do voto de protesto. Nunca mais Cacareco, nunca mais Macaco Tião. Mas não da legitimidade do sufrágio. O sistema, àquela época, já parecia confiável como é confiável hoje, em tempos bem mais tecnológicos, uma operação bancária via internet.
MECANISMOS DE COMPRA
Imprimir o voto em papel, como quer Carvalhosa, e como querem os deputados que aprovaram essa aberração, é recuperar mecanismos para comprá-lo. O comprovante em troca do outro pé de bota. O comprovante em troca de uma dentadura. Percebem?
CONTRA OU A FAVOR
Talvez não seja possível conjecturar o que se passa na cabeça de Carvalhosa a respeito da delação premiada, mas não se pode dizer o mesmo sobre seus pares na mesa de conferência. René Dotti é a favor da colaboração, mas contra a prisão em segunda instância. Miguel Reale Jr., filho do integralista Miguel Reale, é a favor da delação e a favor da prisão, sob o “fino argumento” de que se prende à revelia no país antes mesmo da condenação em primeiro grau, a olhos vistos e silentes da corte suprema.
ANTI GILMAR
O que Carvalhosa quer ao defender o voto impresso nas urnas, depois de mais de duas décadas em que a urna eletrônica vai bem, obrigado, não se sabe. Talvez o jurista atenha-se ainda à questão, já devidamente refutada de que o registro em papel dificulta a fraude. Mais do que isso, Carvalhosa tem ainda outro desejo nada secreto. Ele protocolou pedido de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, um teórico da ponderação de renome internacional. Mendes tem lá suas idiossincrasias. Quem não as tem? Carvalhosa, por exemplo, acha que no papel cabe tudo, inclusive a legalidade do sufrágio. É uma opinião, mas sem embasamento algum em dado comprobatório. E é isso que preocupa.
