
Esqueça o golpe, a impopularidade, a mala de R$ 500 mil, o “tem que manter isso, viu?” Há dois meses, o presidente Michel Temer imprimiu seu nome na história ao sancionar a lei que flexibiliza a “Voz do Brasil”, o noticiário mais odiado (e mais achincalhado) do rádio brasileiro. O ato meritório passou despercebido. E não deveria.
BESTIÁRIO
Nunca antes na história houve um presidente capaz ou corajoso o suficiente para interromper o noticioso deveras inútil do Executivo, do Judiciário e principalmente do Legislativo, aquele a reproduzir o bestiário de deputados e senadores na tribuna, não risível porque desacompanhado da claque gravadas dos humorísticos.
NADA DE NOVO NO FRONT

Durante 83 anos a “Voz do Brasil” singrou incólume as ondas do rádio, criada por Getúlio Vargas com um propósito definido: atualizava as notícias do que era um estado de exceção, para depois abastecer o brasileiro de informações frescas do front da Segunda Grande Guerra, ainda que, em 1944, quando os pracinhas brasileiros foram à luta, já não havia mesmo nada de novo no front.
NOS CANTÕES DO BRASIL
As emissoras de rádio reclamam com razão. “A Voz do Brasil” invadia a programação justamente em horário nobre. Fim de tarde começo da noite, quando o ouvinte das grandes cidades está preso no congestionamento e quer saber notícias do trânsito e do dia. Os legisladores, no entanto, entendiam, que a “Voz do Brasil” prestava um serviço aos habitantes dos cantões do Brasil aonde as notícias (oficiais) chegavam por meio de programação única e horário único, impingidas ditatorialmente aos seus ouvidos.
VERDADE ALTERNATIVA
A esquerda brigou feio com o programa oficial até chegar ao poder em 2003. A partir daí encontrou na “Voz do Brasil” uma forma de democratizar a informação passando aos ouvintes o que acreditava ser o fato alternativo da verdade ou a verdade alternativa dos fatos. Nem a “Rádio Moscou” ou a “Voz da América” ousaram tanto.
ORA, POIS, FATURAR
Temer oficializou uma medida que algumas rádios já vinham adotando através de decisões judiciais: flexibilizou os horários. Agora, a “Voz do Brasil” pode ser ouvida entre 19h e 22h, deixando margem para que as emissoras utilizem o horário nobre – a exceção são as rádios públicas e legislativas, que continuam acorrentadas ao “Guarani das Sete da Noite” – para inserir comerciais, colocar no ar informações de utilidade pública e, ora pois, faturar, que ninguém vive de “estocar” vento (copyright Dilma Rousseff).
CAMPEÃ DE “ODIÊNCIA”

No ápice da picardia contra a campeã de “odiência”, o cantor e compositor Zé Rodrix uniu-se ao “Joelho de Porco”, uma banda de punk-rock paulistana, e compôs “A Última Voz do Brasil” apresentada em um festival da Globo em 1985. A letra dizia assim: “São quinze para as sete. Tá quase na hora. De ouvir pelo rádio a última voz do Brasil.
Calem a boca, cantoras do rádio. Tá quase na hora da última voz do Brasil. Vocês não vão saber de nada mais! Em Brasília, 19 horas. O preço da soja, dilúvio do acre, panela no fogo, barriga vazia. E aquela folia da última voz do Brasil”.
Ok, não é exatamente a última “Voz do Brasil”, mas é o fim “flexibilizado”. Quem dera o apocalipse fosse assim.
