
O documento secreto da CIA revelando que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) aprovou a continuidade de uma política de “execuções sumárias” de adversários da ditadura militar não é propriamente uma novidade no front.
ILUSÕES PERDIDAS
Em 2003, o jornalista Elio Gaspari já havia relevado na quadrilogia “Ilusões Perdidas”, em que conta a história do regime militar em sua ascensão e queda, uma conversa reveladora entre Geisel, pouco antes de sua posse na presidência, que se daria em 15 de março de 1974, em que o general Dale Coutinho ouve de Geisel o seguinte comentário acerca dos inimigos da ditadura: “Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá para fora. […] Ó Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser”.
GUERRA SUJA
Gaspari também relata no livro “A Ditadura Envergonhada”, terceiro volume da série, outro diálogo ocorrido também antes da posse de Geisel, em que ele e o tenente-coronel Germando Pedrozo falam sobre um grupo de pessoas presas no Paraná. Geisel questiona Pedrozo: “E não liquidaram, não?” Pedrozo então confirma as execuções: “Ah, já, há muito tempo. É o problema, não é? Tem elemento que não adianta deixar vivo, aprontando.
Infelizmente, é o tipo da guerra suja em que, se não se lutar com as mesmas armas deles, se perde. Eles não têm o mínimo escrúpulo.” Geisel, então, completa. “É, o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa”.
MÉTODOS EXTRA-LEGAIS
O que Geisel queria dizer com inteligência seria confirmado no fim de março de 1974, quando, segundo o que está registrado no documento da CIA, Geisel já empossado ouviu o relato do general Milton Tavares que defendeu a manutenção de “métodos extralegais” empregados contra subversivos perigosos. João Baptista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e que depois sucederia Geisel na presidência, “apoiou essa política e insistiu em sua continuidade”.
COM A APROVAÇÃO DE FIGUEIREDO
Geisel teria pedido para pensar durante o fim de semana. Em 1º de abril, orientou os subordinados a executar somente subversivos perigosos. Para garantir que sua ordem fosse cumprida, ele e Figueiredo concordaram que todas as execuções deveriam ser aprovadas pelo chefe do SNI.
SEGUNDO O DOCUMENTO
“Quando o Centro de Informações do Exército (CIE) prender uma pessoa que possa se enquadrar nessa categoria, o chefe do CIE consultará o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada. O presidente e o general Figueiredo também concordaram que o CIE deve dedicar quase todo o seu esforço à subversão interna, e que o esforço geral do CIE será coordenado pelo general Figueiredo”, descreve o documento da CIA.
OÁSIS PARA INVESTIDORES
A conversa entre Coutinho e Geisel, também revelada por Gaspari, indica que o ex-presidente sabia e autorizara execuções de adversários do regime. Na ocasião, ambos afirmam que o Brasil só se tornou um “oásis” para investidores depois que eles “começaram a matar”.
50 MORTES
Postado nas redes sociais por Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, que o classificou de perturbador, o documento da CIA revela que a “cúpula do governo Geisel não só sabia como chamou para si a responsabilidade pelas execuções” de pelo menos 50 opositores políticos. “Isso é que é tão impressionante”, declarou Spektor.
FEITICEIRO
A revelação também desmonta a “aura de democrata” de Geisel, responsável pela “abertura lenta e gradual do país”, então sob os auspícios dele e do feiticeiro Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil.
MORTE DE HERZOG
Geisel foi comandante da 5ª Região Militar, no Paraná, e tinha ligações estreitas com Curitiba, apesar de gaúcho, nascido em Bento Gonçalves.
Foi ele quem conteve a “linha dura” do Exército ao exonerar o comandante do 2º Exército, o general Ednardo D´Ávila Mello, depois da morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOPS, em São Paulo. Geisel também afastou o general Sylvio Frota do Ministério do Exército, que aspirava sucedê-lo presidência da República, fechando as portas para o retorno à democracia.
MST EM SARANDI
Em 1977, no município de Sarandi, no interior do Paraná, uma invasão de terras na Fazenda Annoni deu início ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (o MST). Sob as barbas de Geisel, a abertura política e social do país dava os seus primeiros passos.

