
O advogado, que se intitula também jornalista, e assessor da Casa Civil, Carlos Felisberto Nasser, não pinta o cabelo de acaju como querem fazer crer seus detratores. Nem faz o estilo do homem que compartilhou com Deus (ele mesmo) as certezas da política e do futebol, julgando necessário espalhá-las nas redações em telefonemas longos e modorrentos.
AMIGO DE PAULO FRANCIS
Nasser jamais será um homem de exageros.
Gozou, sim, da intimidade de João Saldanha, Armando Nogueira e Nelson Rodrigues. Todos eles, aliás, citaram Nasser em suas crônicas e textos, “algumas vezes”. Difícil é garimpar tal menção, mesmo com o uso das ferramentas mais poderosas do Google.
Carlos Felisberto Nasser – ele sempre odiou o nome do meio – foi à Nova York, certa vez, para uma visita prazerosa a Paulo Francis. Francis é o seu ícone e sua referência. Seria um Deus para Nasser se a ‘vaga’ já não estivesse ocupada por ele mesmo.
TERCEIRO ESCALÃO
O noticiário dá conta de que Nasser, um assessor de terceiro escalão, negociou algo em torno de R$ 3 milhões com uma das empresas concessionárias do pedágio no Paraná. Na pasta, ele recebia R$ 7 mil mensais mais R$ 4 mil de aposentadoria. Culpado ou não, Nasser passou dez anos escrevendo um livro sobre futebol (“Jogadores Eternos”, Novo Conceito). O resultado, ele diria, é ímpar. Como são todos os livros que deitam perfis sobre atletas célebres.
BLOG DE MEMÓRIAS
Em 2017, há quatro anos ocupando cargo comissionado no governo, Nasser se pôs a registrar suas memórias em um blog. Não foi muito longe – talvez três ou quatro postagens – e o que se vê é o rumor insinuante de uma “obra maiúscula”. A conferir:
Segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Os amigos pediram e eu voltei.
“Dei a volta ao mundo para saber o que Pelé pensava e como agia perante os adversários e companheiros de time. (…) Ninguém pode afirmar que o dia de amanhã será uma sequência de ontem. Ganha uma bala quem acertar a sequência dos próximos acontecimentos. Em Beka, na Síria, a decisão de levar adiante o muro do México (sic) e suas consequências. Aos poucos e sem mais surpresas vamos em frente deixando de lado a vida que segue (sic)”.
Quinta feira, 16 de fevereiro de 2017
Levei anos para escrever meu livro sobre futebol…
“Jamais alguém fará outro livro igual ou próximo. (…) Aprendi com meu dileto amigo Paulo Francis, que não se deve escrever um tijolaço (um assunto só). Faça mudando aos poucos para prender o leitor, veja como fica mais interessante e agradável. Na próxima vou abordar política.
Imagine o Paulo Francis vivo nesse Brasil medíocre de hoje”.
Quarta-feira, 1 de março de 2017.
Dizem os chineses que só cabem dois tigres em uma montanha…
“Dizem os chineses que só cabem dois tigres em uma montanha. Um vai sobrar na luta que leva à morte pelo domínio da floresta. Raciocínio perfeito na situação em que vivemos nos dias de hoje. Apenas trocamos de contendores, saem os tigres e entram os ratos. O presidente Mao Tse Tung sempre viveu isolado junto com seu médico particular, por quem mantinha grande respeito. O médico voltava dos Estados Unidos, onde participara de um Congresso sobre o fumo (Mao fumava muito). Na volta os guardas da alfândega tomaram seu relógio de estimação. Ficou magoado, mas nunca disse nada ao presidente para não incomodar. Até que certo dia mudou de atitude e denunciou os ladrões da alfândega. Mao foi ao escritório e voltou com uma gaveta cheia de belos relógios e mandou que o médico escolhesse um, o que foi feito. Terminou dizendo que era impossível pegar um peixe sem sujar o lago. Mao mandou fuzilar os ladrões sem que ninguém soubesse. Aqui o lago está sujo demais, além de que não temos o presidente igual ao grande Mao (sic). Mudando de assunto… Não podemos banalizar a Lava Jato, mesmo que custe a beleza do lago (sic)”.
Sexta-feira, 31 de março de 2017.
Sou do tempo em que se armazenava (sic) cachorro com linguiça.
“Sou do tempo em que se armazenava (sic) cachorro com linguiça. Isso foi antes da globalização e próximo da segunda guerra mundial. O nosso artilheiro também sabe como vencer os inimigos. Com 24 anos o general Neymar tem o dom dos vitoriosos; com ele os adversários entram em pânico pela maneira como conduz os companheiros, ao levar o inesperado a ser sua rotina. (…) Já existem equipes mistas (sic) onde africanos jogam com franceses e espanhóis. Não tem equilíbrio, não tem possibilidade de entrar na área e fazer o gol (sic)”.
SEM COMENTÁRIOS
O blog interrompe-se aí. Não há menção sobre os amigos que pediram para que voltasse e não passa de especulação a afirmação de que eles também pediram para que saísse.
Procurado, ‘Deus’ não se manifestou.

DESSE JEITO, NASSER FOI MUITO PODEROSO
Quem classifica, hoje, o advogado e ex-dirigente de corretora estatal de seguros (do Banestado), no Governo Canet Junior, Carlos Nasser como “um inofensivo senhor de 80 anos, doente de câncer”, pode até estar falando a verdade.
A idade provecta retirou, é certo, o muito poder político que Carlos Nasser desfrutou no Paraná até o final dos anos 1990.
Mas foram as mortes de pelo menos dois de seus mais fortes guardiães – Francisco da Cunha Pereira Filho e Affonso Alves de Camargo Neto – que fizeram desaparecer essa fértil ‘eminence grisé’ da vida pública paranaense.
Graças ao então poderoso dono do grupo Gazeta do Povo e RPC, Francisco da Cunha Pereira Filho, que o moço de Irati conquistou espaço sem fim em círculos decisórios do Paraná, alongando tentáculos Brasil a fora. Era um condestável, em consequência, também no palco e plateia de Curitiba, a chamada Boca Maldita.
Cronista dominical da Gazeta do Povo, por dezenas de anos, Nasser era tido como jornalista, sem jamais ter passado, no entanto, por uma redação de rádio, jornal ou televisão, nem estudado Jornalismo.
Habilidoso no trato, sobretudo com os poderosos e com os influenciadores da opinião pública – como Paulo Francis -, passou, num dado momento a ser visto como interlocutor privilegiado dos interesses de Francisco junto ao grupo Globo. Diz-se, até, que teria tido papel importante junto a Roberto Marinho quando da passagem da programação da Rede Globo, ao sair do grupo Paulo Pimentel para a RPC de Francisco da Cunha Pereira.
Sempre se soube da boa relação de Francisco e Nasser. A tal ponto que, depois da morte de seu padrinho, tendo sido despedido da Gazeta do Povo pelos irmãos Ana Amélia e Guilherme, Carlos Nasser, ter propagado que intentaria ação contra a Gazeta e RPC. Em busca de comissionamentes que supostamente Francisco com ele acordara.
As empresas, argumentava, lhe deveriam comissões decorrentes de terem ganhado a programação da Rede Globo.
Sempre apontado como eficiente operador em bolsas de valores, Nasser teve uma vida à grande, ele que nascera classe média, filho de um médico. Viajava pelo mundo como a intimidade dos viajantes frequentes; ufanava-se de frequentar o melhor do melhor das cozinhas italiana e francesa, in loco, em Itália e França. Tudo como se fosse coisa corriqueira.
Se ganhou dinheiro é um mistério! Lembro-me, apenas, de dias em que o deputado estadual do então PDS, Airton Cordeiro, acompanhado de outros parlamentares, desancou a atuação de Nasser na Banestado Corretora de Títulos e Valores, com denúncias pesadas na AL., mas inconclusivas, é verdade.
Por muitos anos, igualmente, o nome de Nasser apareceu como de “acólito” de Alvaro Dias, mas sua ligação maior foi mesmo com Affonso Camargo Netto. Eram inseparáveis, o que, ipso facto, só fazia ampliar-se o poder de Nasser.
De qualquer forma, mesmo com a morte de seus dois padrinhos, Nasser nunca deixou de ocupar cargos comissionados, de assessoramento, na Prefeitura de Curitiba e no Governo do Estado. Nessas posições, o hoje oitentão não foi certamente um “mero terceiro escalão”. Nada indica, no entanto, que fosse um bafejado pelo atual governador Beto Richa, ou que o influenciasse no Governo.
Os grandes momentos de Nasser, além dos citados, incluem os dias em que todo charme da vida política e da vida “dourada” passavam necessariamente pelo Rio de Janeiro, quando ele chefiou o poderoso Escritório do Paraná no Rio.
Dali, naquela posição de escalão intermediário, fez brotar um mar de relacionamentos que duram até hoje. Situações em que recursos públicos, legalmente liberados, garantiram patrocínios culturais, viagens turísticas, aberturas de portas empresariais nesta ‘terra de todas as gentes”.
Por último, mas não menos importante a frisar: Carlos Felisberto Nasser foi um mestre na arte do RP e do Lobby. Tudo muito de acordo com o DNA desse neto de libaneses.
Em meio a tantas benesses desfrutadas, no entanto, também cultivou desafetos, ou “inimigos dedicados”.
