
Ao anunciar uma solução moderna para as barraquinhas da Feira do Largo da Ordem, cuja exposição jurássica já espantava turistas em lugar de atraí-los, o IPPUC – Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba –, bebeu da mesma fonte onde o arquiteto e urbanista Jaime Lerner mergulhou de cabeça.
RUA PORTÁTIL
Não é segredo que as barraquinhas retráteis, montadas sobre apenas um eixo, foram idealizadas a partir da Rua Portátil, que Lerner exibiu no Museu de Artes de Chicago lá se vão doze anos. Não por acaso a mostra paralela chamava-se “Modern Day Leonardos” (Leonardos de Hoje). A ideia de Lerner era interferir na urbanidade o suficiente para que as badulaques fossem oferecidas em um módulo sobre rodinhas que era recolhido à noite e dava nova vida ao ambiente. Uma rua com duas vidas.
Coisa de Jaime Lerner.
UMA BARRAQUINHA, UM ARTESÃO
As barraquinhas do Largo da Ordem ainda vão longe. Até o fim do ano, o IPPUC promete substituí-las e dar nova roupagem ao artesanato ali vendido. São 1.250 armações de ferro e lona, até a última contagem. Cada uma com um artesão em disputa frenética pelo turista e pela notoriedade um dia desfrutada por Efigênia do papel de bala.
SOL QUENTE, CHUVA FRIA
Há muito reclamava-se um banho de loja no largo. Gritava-se também uma solução para os apertos em hora de pico, além de um abrigo para as frequentes oscilações de humor do céu curitibano. Sol quente, chuva fria.
A VANTAGEM DE MARIA
Desde 2002, quando deixou o governo do Paraná, Lerner não quer saber de política. Tricota projetos no escritório que leva seu nome e os vende a preço substancial às cidades do Brasil e do mundo. O segredo não está nas campanhas de boas práticas, mas na disposição do município em bater à porta do munícipe. Caso do programa “Lixo que não é lixo”. Deu tão certo que os paulistanos demoraram a entender que vantagem Maria levava.
Ora, a vantagem estava na outra ponta com a usina de lixo reciclável gerando dividendos para a manutenção do serviço. Tão simples que chega a ser genial.
CRIADOR E CRIATURA
Por isso, o IPPUC dispensa apresentação. Por isso, Jaime Lerner, seu criador e criatura, esbanja soluções viáveis para questões que um outro qualquer resolveria com um viaduto. “A viadutice”, diz Lerner, “é o mal da modernidade”.
DOCK DOCK
Fosse por Lerner e os carros teriam sido abolidos do quadrilátero central de Curitiba. Que pastem em outro lugar. Lerner só admite os automóveis, quando elétricos e com a finalidade de percorrer curtas distâncias. Criou o Dock Dock, em 2009, e espantou os concorrentes. Um carrinho de banco único para levar seu motorista a empreitadas de baixa quilometragem e percurso exíguo. A solução ainda parece atrativa, mesmo porque as montadoras já vislumbram uma grande frota de elétricos até 2050.
TRABALHO, MORADIA, LAZER
Lerner enfrenta, agora um desafio: fazer do centro velho de São Paulo um lugar habitável. E o habitar tem aqui um sentido estrito: o urbanista quer recuperar os prédios residenciais que jazem abandonados ou alugados ao comércio da cidade. A ideia é conjugar trabalho-moradia-lazer, uma solução que ele viu nos países europeus, principalmente na França, e quer importar para São Paulo. Lerner tem horror ao projeto “Minha Casa, Minha Vida”. Deu a ele um complemento: “Meu Fim de Mundo”. É um cenário inadmissível para um urbanista que aposta todas as suas fichas no conceito do pedestre e não do veículo. “O carro é o cigarro do futuro”, afirma, em aforismo célebre.
A cada dia ele parece mais certo.


