sábado, 4 abril, 2026
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O GRANDE CONY E O JORNAL ESCRITO A LÁPIS

Carlos Heitor Cony: coisas da vida
Carlos Heitor Cony: coisas da vida

Uma entrevista reexibida pela Globo News com o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, morto na sexta passada, aos 91 anos, deu luz a um confronto tecnológico que parecia esquecido: o do papel com a máquina de escrever.

RESSENTIDOS

Em menos de duzentos anos as ferramentas de ofício do jornalista transformaram-se. A ponto de deixar para trás uma geração de renegados e ressentidos com a modernidade que se instalava nas redações.

BALZAC E A PENA DE CORVO

Escrevia-se a pena de ganso quando Napoleão Bonaparte foi e voltou de Waterloo, em farrapos. A exceção era Balzac, cuja escrita frenética e as correções tipográficas deixavam os gráficos à beira de um ataque de nervos. O francês era um adepto da pena de corvo, mais durável para suas empreitadas noturnas de narrativas árduas. Quando o sol raiava, lá se fora um romance.

QUASE MEMÓRIA

O pai de Cony, Ernesto Cony Filho, era um jornalista modesto, como tantos na primeira metade do século XX. Há um trecho sobre ele no livro “Quase Memória” quando o narrador, Cony, identifica a caligrafia do pai no sobrescrito de um envelope e relembra o jornalismo escrito em ponta de lápis sobre tiras de papel que sobravam das bobinas.

INTRANSPONÍVEL

A certa altura, Ernesto confrontou-se com a máquina de escrever. Era um desafio tecnológico que se revelou, para ele, intransponível. Quando a linotipia, a certa altura, recusou-se a aceitar original escrito a mão e uma lei, inventada às pressas, veio em socorro afirmando ser aquela uma atividade insalubre, ele foi obrigado a encontrar outra coisa para fazer.

A VEZ DO COMPUTADOR

Meio século depois, o computador bateu à porta e chegou a vez de datilógrafos exímios, que entregavam as laudas sem os garranchos vermelhos rabiscados à margem, pedirem o chapéu.

Honoré de Balzac: incompreensível
Honoré de Balzac: incompreensível

APOCALIPSE

Talvez os efeitos não tenham sido tão devastadores aos jornalistas nessa fase. Afinal, o teclado é o mesmo, a ponto da invenção equiparar-se à roda. Mas foi apocalíptico para os diagramadores. Bastou um software barato começar a construir páginas e calcular caracteres. Nesse dia, o papel quadriculado usado para desenhar o jornal foi picado, lançado ao ar e virou aleluia.

O ROBÔ VEM AÍ

Dizem que os jornalistas de ontem são os assessores de imprensa de hoje.

Uma tarefa que não depende de tecnologia. Basta um celular e a disposição para interpretar, diuturnamente, uma natureza morta. Isso até que inventem um robô com a mesma função. E parece que ele virá com dois botões de voz essenciais. O primeiro: “Ele nega as acusações”. O segundo: “Ele não tem nada a declarar”. Grátis, um advogado.

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