segunda-feira, 11 maio, 2026
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ASSIM NASCEU O MANUAL

Walter Schmidt: escreveu o manual
Walter Schmidt: escreveu o manual

Há quase duas décadas, a “Gazeta do Povo” decidiu em meio à construção de um projeto gráfico e editorial inovador, encarregar o jornalista Walter Schmidt da elaboração do manual de redação do jornal. Schmidt sempre foi um teórico do jornalismo. Não no sentido acadêmico-bocejante, mas prático-analítico. Ele conhecia as ferramentas, vivera as transformações, trabalhara nos principais diários do Paraná e construíra ele próprio uma visão arquitetônica da notícia.

INDICAÇÃO CERTEIRA

Nada mais natural, portanto, que fosse ele o melhor indicado para a empreitada. Schmidt cercou-se dos principais manuais de redação já concebidos no Brasil para construir o manual da Gazeta. Exceto nas redações do eixo Rio-São Paulo, havia poucas referências. O diário “Indústria & Comércio” fora pioneiro no Paraná, reunindo um conjunto de normas jornalísticas sem muitas pretensões, mas útil à sua redação, então com mais de 50 profissionais e uma edição catarinense.

RASCUNHO DE A a Z

Havia certa preferência da direção Gazeta pelo manual de O Estado de S. Paulo, mas Schmidt não se apegou apenas a ele. Durante meses, construiu um rascunho de A a Z com o que daria corpo ao “guia espiritual, editorial e redacional” do jornal. Infelizmente, esbarrou em um obstáculo intransponível. A Gazeta estava imersa em indagações existenciais (quem sou, de onde vim, para onde vou?), que se revelariam premonitórias.

RENDIÇÃO AOS FATOS

Há casos expressivos nos arquivos do próprio jornal que reforçam essa afirmação. Schmidt se viu em tantos apertos que, em dado momento, mesmo levando em conta sua dedicação e seriedade profissional, resignou-se, rendeu-se aos fatos e deixou a ideia do manual descansar e depois morrer lentamente em uma gaveta da redação.

GUIA DE CURIOSOS?

Agora, no ano em que o jornal deu fim à edição impressa, o manual da Gazeta parece ressuscitar na versão digital. Porém, de maneira enviesada. O que se vê é uma enciclopédia, um dicionário ilustrado, um guia dos curiosos. Dois exemplos disponíveis no site: “Por que o 20 de novembro é feriado e o que significa o Dia da Consciência Negra”? “Por que o drama dos atrasados do Enem não existe nos EUA”? Outro: “Como funciona a interdição de uma pessoa no Brasil”?

RESTOU O “MANUEL”

Fica claro que o manual não é destinado à redação, não trata de orientar os jornalistas sobre a maneira de grafar palavras ou abordar temas espinhosos com a devida isenção. É um compêndio para o leitor. Aquele que não está em busca de notícias, mas de um box ou de uma correlata (para ficar em um jargão do meio) que adicione informações ao que ele já obteve em outro lugar. Se a fórmula tem dado resultado, muito bem. Mas não deixa de causar estranheza ao leitor que sempre buscou na Gazeta uma “front-page news”. Walter Schmidt fez bem em deixar o manual, jocosamente chamado de “manuel”, esquecido na gaveta. Ele não teria serventia na era moderna do jornal.

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