segunda-feira, 11 maio, 2026
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KEVIN SPACEY E UM BRINDE AO VELHO MUNDO NOVO

Kevin Spacey: tudo às claras; Woody Allen: caça às bruxas?
Kevin Spacey: tudo às claras; Woody Allen: caça às bruxas?

Levante a mão quem não tinha a mais absoluta certeza de que Kevin Spacey, o Frank Underwood da série “House of Cards”, é gay? Ele nem precisava sair do armário como fez o Power Rangers azul. Todo mundo sabia. Nos anos 90, pouco depois de ganhar fama, Spacey foi fotografado em situação insólita com um coleguinha, escondido atrás das pedras de uma praia pouco frequentada. Mesmo assim, o ator só anunciou-se homossexual na semana passada, depois de confrontado com uma história de assédio sexual a um jovem ator de 14 anos.

DOSE DE REFLEXÃO

Um instante agora no escândalo para uma dose de reflexão. Salvo o cafofo de Hugh Hefner, o publisher da Playboy, não existe lugar mais libertino do que Hollywood. Longe do moralismo corrente dos simples mortais, Marilyn Monroe fez uma dezena de abortos, Tyrone Power trocou beijos calientes com Cesar Romero (o “Coringa” da série de TV), Frank Sinatra estuprou donzelas e nem tanto nos bastidores, Jerry Lee Lewis casou com uma menina de 13 anos, sua prima em primeiro grau, e Mae West era conhecida por atacar os países baixos de parceiros ocasionais (eles poderiam durar segundos) em meio a festas que duravam três dias e, principalmente, três noites. Errol Flynn foi acusado de assediar uma menina – bem, não era assim uma garotinha e o verbo “assediar” não era corrente. Tempos depois, ela se apresentou como sua “pretensa noiva”.

CETICISMO SALUTAR

Hollywood nunca foi, por certo, uma escola católica em que meninotes de tenra idade eram atacados por padres libidinosos. E, no entanto, eis que um ator quase desconhecido resolve denunciar Spacey por assédio ocorrido há três décadas. Claro que não se está aqui sugerindo que empurremos a sujeira para debaixo do tapete. Pratica-se, tão somente, o velho exercício do ceticismo, salutar diante de qualquer fato e de qualquer convicção pétrea.

TESTE DO SOFÁ: ELE EXISTE

Harvey Weinstein foi denunciado por Ashley Judd e já há 88 mega-atrizes esperando na fila. Mas com um intervalo de duas décadas. Se Weinstein era tão poderoso assim, a era dos estúdios está de volta. E mais: o teste do sofá, negado por dez entre dez atrizes, já não é mais uma figura folclórica. Ele existe, sempre existiu, E algumas (e alguns) se sentiram confortáveis nele. Inclusive nos meios globais. Woody Allen caiu na besteira em afirmar que se tratava de uma ‘caça às bruxas’ e foi espinafrado. Por sorte, “yo no creo em brujas. Pero que las hay, las hay”.

CONQUISTADOR BARATO

Não se trata de duvidar da notícia, mas de dimensioná-la. Um ator em início de carreira estrilaria ou se anularia. No caso de Kevin Spacey, o que ele disse em sua defesa está nas redes sociais e soa como as palavras de um conquistador barato: “Eu estava bêbado” ou “Eu sou homossexual”. Não diga?

ATÉ TU, GIUSEPPE?

A questão é que ele não quer atrair publicidade. Prefere purgar os seus pecados e deixar que o tempo e a sucessão de escândalos de mesma natureza, que já começam a pipocar (Giuseppe Tornatore? Cinema Paradiso?), encarreguem-se de apagar o episódio da memória do público.

Não será a primeira vez.

ESCOLA BASE

O problema maior é o outro: é o da acusação irresponsável, que não mede consequências, que não se encarrega de raspar o verniz para encontrar a verdade ou a melhor versão dela. Sempre que uma denúncia de assédio ou molestamento sexual vem à tona há de se recordar do episódio da Escola Base, aquele que destruiu a vida de donos de uma escolinha de bairro e deu fama, ainda que fugaz, a um desqualificado delegado de polícia.

SIGA O DINHEIRO

No mais, é o dinheiro falando mais alto. A Netflix, por exemplo, não perdeu tempo em demitir Spacey e cancelar a série que o ator protagonizava. Por que não esperar o registro policial e o depoimento dos acusadores? Resposta: porque a publicidade seria negativa.

PAPEL HIGIÊNICO PRETO

É o caso da Netflix, é o caso da fabricante de papel higiênico preto.

Alguém viu racismo no que era design. A fábrica pediu desculpas, a agência de publicidade pediu desculpas, a garota-propaganda, Marina Ruy Barbosa pediu desculpas e, de certa forma, até o papel higiênico pediu desculpas. Tudo para não gerar efeitos negativos e provocar prejuízo nas contas de todos. Porque é isso que importa.

ERA DAS TREVAS

Mais uma nota ao escândalo: ainda que a onda moralista seja admissível para limpar certos nichos de permissividade e constrangimento no mundo, é preciso aparar arestas. Do contrário, em breve, estaremos devolvendo o mundo à Era das Trevas. Parcimônia e temperança. Duas palavrinhas para pensar em casa.

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