
Há quatro anos, o jornalista Airton Ravaglio Cordeiro foi acusado de assédio sexual. A denúncia mais do que o processo que se seguiu – ínfimo, pecuniário e sem qualquer sentença condenatória ao profissional – foi devastadora para o dono de longa carreira.
Das cinco estagiárias da emissora de rádio que o apresentaram como um “frestador” de galanteios inoportunos, apenas uma levou o caso adiante.
Com ela, soube-se depois, a rádio fechou um acordo, que, dada as repercussões e o cenário de terra arrasada, lhe foi extremamente benéfico. O acordo garantiu uma indenização vantajosa à estagiária, conforme relato recente de um jornalista que ainda trabalha na rádio CBN e, quatro anos depois, confirma o assédio, não porque o testemunhou, mas porque dele “ouviu dizer”. Talvez seja pouco.
EM CADEIA
O espírito solidário exigiu que três âncoras da emissora se demitissem depois que a CBN Curitiba recusou-se a afastar Airton Cordeiro de suas funções. Ele era o comentarista do jornal vespertino. À decisão dos âncoras, seguiu-se uma reação em cadeia, manifesta a princípio nas redes sociais, na imprensa em geral e depois no Sindicato dos Jornalistas do Paraná, que levou o caso para o Conselho de Ética da categoria, um órgão que deveria ser independente e sigiloso, mas que, surpreendentemente, já deu munição a diretores para pressionar colegas. Em um viés ideológico, diga-se, ainda que também moral e discriminatório.
DÚVIDA RAZOÁVEL
A denúncia, agora com relativa distância temporal, parece desdizer o que ocorreu de fato ou pelo menos dela levantar dúvidas razoáveis. O mesmo testemunho que dizia que Airton Cordeiro costumava sussurrar palavras obscenas a estagiárias, telefonistas e secretárias da rádio, também se apresenta como um galanteador. Mas um galanteador “tolerado”, já que é nas entrelinhas de seus textos que ele costuma declarar o amor à musa da hora. Trata-se, no entanto, de ninfas inspiradoras não de vítimas do colega dado a “filosofias de pedreiro”.
PROFISSIONAL DIFERENCIADO
Há testemunhos, e aqui subtraem-se os nomes porque uma denúncia não se faz ao léu, de que havia diferenças entre Airton Cordeiro e os demais membros da redação. O jornalista teria sido contratado pelo dono da emissora, Joel Malucelli, e não era considerado um profissional ‘no modelo esperado por muitos de seus pares’.
Mas ninguém lhe poderia tirar amplo conhecimento da realidade presente e histórica da política paranaense. E muito menos que o jornalista tinha especial poder de argumentação, realidade que havia sido confirmada quando liderou a bancada de Ney Braga na Assembléia, ou quando foi líder do prefeito Saul Raiz, na Câmara de Curitiba. E depois como constituinte de 1988.
SIGILO DA FONTE
Cordeiro foi radialista, colunista e deputado federal constituinte, autor do artigo que garantiu o sigilo da fonte ao jornalista, mas isso é parte do currículo. Ele também foi um galanteador emérito. Não porque a cantada fosse inerente à sua geração, como quis afirmar José Mayer ao encontrar um motivo, por si chocho e indesculpável, ao assédio à cabeleireira que o atendia. Mayer admitiu publicamente seu erro.
Airton Cordeiro jamais o fez, até porque seu espírito galanteador nunca significou prática de crime de assédio.
Antes que esboçasse qualquer defesa, foi massacrado nas redes sociais e condenado ao ostracismo. Um ostracismo que lhe foi especialmente duro, porque seguido da morte de sua esposa e de uma doença que o obrigou ao uso de uma cadeira de rodas.
“PRESSÃO POPULAR”
Partiu-se de uma denúncia, sem peça acusatória, sem testemunhas, que ganhou as redes sociais e, nelas, se montou o processo. Um processo que chegou a termo por “pressão popular”. A mesma “pressão popular”, aliás, que no último fim de semana antecipou o encerramento da mostra “Queermuseu”.
“ESCOLA DE BASE”
Talvez, após quatro anos, o que se exija é uma revisão do processo público, para que não se transforme em mais um caso exemplar da “Escola Base”, em que a insinuação de molestamento sexual de crianças, um tema por si só explosivo, foi suficiente para provocar uma reação dos pais e da mídia com danos irreparáveis aos suspeitos. A denúncia inconsequente e o linchamento moral que se seguiram são até hoje lembrados quando se aborda, nas faculdades, “os erros crassos do jornalismo”.
ÉTICA JORNALÍSTICA
É clássico o livro “O jornalista e o assassino”, de Janet Malcolm (Companhia das Letras), em que ela discute a história da ética jornalística no caso de um médico, condenado à morte por matar a família, que confiou em um repórter para escrever sua história e depois o processou porque ele usou de sua confiança para transformá-lo em um monstro. O caso de Airton Cordeiro não se compara, mas toca em um tema crucial: o poder do jornalista (e do jornalismo) e como ele pode assassinar reputações.
