
“Miserável país aquele que precisa de heróis”, diz Galileu Galilei na peça homônima escrita pelo alemão Bertold Brecht. É uma das citações mais manjadas da internet. Talvez tão manjada quando aquela que diz “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, atribuída a um sem-número de pessoas, mas de autoria mesmo do Dr. Samuel Johnson, um rematado frasista.
Pois Brecht cabe como uma luva na foto que estampa a capa dos jornais nesta terça-feira (29). Mostra o juiz Sérgio Moro ao lado da mulher, Rosângela Wolff Moro, e do também juiz federal Marcelo Bretas (que lhe oferece pipoca de um pacote “mega combo”) assistindo a pré-estreia do filme “Polícia Federal: a Lei é Para Todos”, em Curitiba.
NO ESCURINHO DO CINEMA
Claro que Moro inflou-se, ainda que tenha evitado dar declarações. As imagens dizem tudo. Na tela, o juiz é interpretado pelo ator Marcelo Serrado, que foi a segunda opção. A primeira era Wagner Moura, mas ele recusou por conta de suas ideias que, convenhamos, andam um tantinho atabalhoadas.
Moro recebeu aplausos dentro e fora da sala de projeção, devolveu acenos e risinhos.
Emanou uma reação natural para um país que vive as agruras da corrupção.
Talvez haja uma compreensão de que os heróis são descartáveis. O que fica é a vingança do pipoqueiro reeditada no formato combo. Idêntico ao saco de pipocas de Bretas.
SESSÃO ‘DESCARREGO’
O filme confirma a tese de que os heróis passam. Não é a deflagração da prisão de petistas notáveis ordenada por Moro que mexe com o público, mas sim a aparição do Japonês da Federal, que faz uma ponta interpretando ele mesmo. É nessa hora que o cinema vem abaixo e que o herói predileto encarna em personagem mais folclórico. É o homem do “teje preso”, o homem que endurece e que, sem perder a ternura jamais, mete as algemas no prisioneiro. O efeito é aquele mesmo que os pais-de-santo chamam de descarrego.
