
Não é a primeira vez que o Ministério Público Federal desconhece a profissão do jornalista e o exercício do jornalismo.
Não é a primeira vez, não será a última. Esta coluna destacou, na sexta-feira passada (25), o procedimento equivocado dos procuradores da Lava-Jato, Jerusa Burmann Viecilli e Athayde Ribeiro Costa, ao não enxergarem atividade de imprensa na ação do jornalista Francisco José de Abreu Duarte, que antecipou a um blogueiro paulista a informação do mandado de condução coercitiva de Lula.
POTE DE OURO
A alegação seria cômica, não fosse trágica. Duarte, à época, não trabalhava com carteira assinada. Sim, esse é o argumento dos procuradores que certamente, vivem, numa redoma de vidro, onde se servem do mel nas torneiras, da água cristalina da fonte e do pote de ouro no fim do arco-íris.
Não é de hoje que promotores e procuradores da Lava-Jato, estes que gozam de auxílio-moradia, auxílio-creche e que tais sem enxergar nisso nenhuma imoralidade – afinal a “pendura” está na isonomia – ultrapassam limites e ameaçam direitos fundamentais. A imoralidade dá lugar ao deboche. Como o de um juiz do Mato Grosso que recebeu R$ 500 mil num único mês: “Não tô nem aí”, disse. Não está mesmo.
SIGILO DA FONTE
Os procuradores da Lava-Jato desconhecem a atividade jornalística no trabalho de Francisco José de Abreu Duarte ao vazar a informação porque querem que revele sua fonte. É outro postulado constitucional que a sociedade enxerga em pequena escala e do qual juízes, procuradores e litigantes se aproveitam.
Em democracias desenvolvidas, o sigilo da fonte está enraizado no conceito de imprensa livre. O exemplo mais famoso é o do “Garganta Profunda”. Sem ele, não viria à tona o esquema de espionagem na Casa Branca, urdido a partir do gabinete de Richard Nixon.
SEM EXCLUSIVIDADE
O sigilo, no entanto, não é uma exclusividade do jornalista. Estende-se após médicos na relação com o paciente. Estende-se ao padre na relação com o fiel, estende-se, ora ora, ao advogado na relação com o cliente.
Assim como ao psicólogo e seus pacientes. Romper o sigilo significa descumprir um preceito constitucional e, portanto, criar o ambiente ideal para o estado de exceção.
É o que os procuradores querem. Com a pecha equivocada de “super-heróis”, julgam-se aptos a derrubar qualquer obstáculo para conseguir seus objetivos. Aqui não, minha nega.
CARLINHOS CACHOEIRA
No rol de denúncias que cercou o bicheiro Carlinhos Cachoeira, em anos recentes, um procurador do Rio de Janeiro entrou com processo para obter o nome das fontes que “Veja” havia citado em reportagem, sob o compromisso do sigilo. A revista respondeu: “Quer moleza? Senta na gelatina”.
O desconhecimento ao que é, indubitavelmente, jornalismo praticado por Duarte poderia vir na mesma embalagem. Mas ele é um gentleman. Um profissional formado na PUC-PR que não goza das benesses do funcionalismo público e pauta seu trabalho na verdade dos fatos, não na aspiração carreirista.
COMPARÁVEL A UM COZINHEIRO
Que o ministro Gilmar Mendes, do STF, tenha decidido monocraticamente, que a profissão de jornalista não deve exigir diploma – porque “comparável a de um cozinheiro” – só traduz o desprezo e o rancor que as instituições nutrem pela imprensa. Nada mais natural.
Há toda uma argumentação, antecipada com mais minúcias e em primeira mão na coluna de sexta-feira (25), que nos faz crer que o Ministério Público Federal, ou alguns de seus personagens, julga-se agora pronto a promover uma caça às bruxas, arrogando-se a condição de inquisidor.
APENAS JORNALISTA
Repito: a despeito do MPF, Francisco só foi jornalista, a vida toda. E jornalista profissional de uma rara estirpe de homens de imprensa.
E continua a sê-lo, tanto quanto analisa fatos jornalísticos (na assessoria em que trabalha), a qualidade e o nível de aproveitamento das notícias e opiniões, quanto quando exerce o papel de colaborador. Tal como faz com esta coluna/blog há anos.
Formado em Direito, com especial destaque, Francisco nunca deixou o jornalismo em segundo plano. Aliás, não exerceu a advocacia. Ficou apenas com o Jornalismo.
LÍDERES MESSIÂNICOS
Há de fato membros do MPF dispostos a incorporar os líderes messiânicos dos primórdios do cristianismo, que em tudo enxergavam o pecado e em todos os pecadores. O que querem agora, com as exceções de praxe, é liderar a turba contra os ímpios. Isso é perigoso. Muito perigoso.
