sábado, 9 maio, 2026
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A FACE CRUEL DO FACEBOOK

Professora Marcia Friggi
Professora Marcia Friggi

Pronto. O facebook chegou ao ponto que estava fadado a chegar. É o destino também de outras redes sociais, mas fiquemos no site de 1,86 bilhão de usuários/mês. Freud poderia colocá-lo no divã e causa surpresa nenhum psicanalista ter tido ainda a ideia de fazê-lo. O fato é que, garantido pelo anonimato, pela condição virtual, pelo conforto de opinar sem ser retrucado ou exposto e pela facilidade em atirar pedras em todo desvio moral, social, político, cultural ou outra “aberração” que julgue digna de troça ou ataque, o feliz cliente de Mark Zuckerberg ganhou em sua casa o kit Torquemada.

Muito além do prato do dia, da selfie do dia, da dieta do dia, do pequerrucho do dia, da viagem a Miami do dia, há a sombra cruel dos “haters”, os odiadores do facebook que vasculham notícias na internet, dão a elas a própria interpretação e as publicam na linha do tempo a fim de malhá-las como se malha um Judas.

O caso é mais corriqueiro do que se imagina e não está longe da ideia de agredir a pau ou imolar um boneco recheado de pano ou de capim seco.

SOCOS COVARDES NA PROFESSORA

A professora catarinense Marcia Friggi apanhou covardemente de um aluno de 15 anos na sala da diretoria de uma escola municipal em Indaial, município a 170 km de Florianópolis. Em fotos publicadas nas redes sociais, ela mostra o rosto ensanguentado e se diz “dilacerada”.

“Estou dilacerada por ter sido agredida fisicamente. Estou dilacerada por saber que não sou a única, talvez não seja a última. Estou dilacerada por já ter sofrido agressão verbal, por ver meus colegas sofrerem. Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou”, escreveu.

DESAMPARO DOS GOVERNOS

É um desabafo autêntico, amargurado, um grito de dor público. Um trecho chama a atenção e atende ao propósito do que vai adiante. Marcia diz que “há anos, (os professores estão) sendo colocados em condição de desamparo pelos governos”. E ela não se refere a um governo específico, ela generaliza porque sabe que o descaso com o ensino fundamental e médio no país vem de longa data. Talvez a data das caravelas.

ELA VOTOU NO PT. E DAÍ?

Esperava-se uma grande corrente de solidariedade em torno da professora, e de fato houve. Mas o que chama a atenção é a pequena e barulhenta tropa que encontrou no perfil da professora a informação de que ela seria petista ou que teria votado no PT.

“MERECEU A SURRA”

Foi suficiente para que se acendessem as tochas – aquelas mesmas que circularam em Charlottesville – e o julgamento da Inquisição tivesse início. “Se ela votou no partido de Lula, mereceu a surra”, disseram protofascistas. Uma afirmação de ódio digna de figurar no “Pequeno Diário do Bebê da Klan” ou no apêndice da edição de bolso do “Mein Kampf”.

A BESTA-FERA VEIO À TONA

Não é a primeira vez. Não será a última. Alguns julgam normal, afinal vivemos em uma sociedade polarizada. Não é não. As redes sociais não são sociais coisa nenhuma e é difícil crer que traduzam a opinião da maioria. Muito antes do Big Brother – o reality show –, cientistas se fecharam em uma redoma de vidro para estudar o isolamento. Queriam testar como os habitantes do planeta sobreviveriam no caso de um cataclismo ou de uma guerra nuclear. Em pouco tempo, a besta-fera que vive em nós veio à tona e pôs fim ao projeto. Nem cientistas, ciosos de que se tratava de um trabalho importante, conseguiram sair ilesos do confinamento e do contágio ao ser humano.

LIÇÃO INQUISITORIAL

A Inquisição era um microcosmo. Os julgamentos aconteciam em pequenas aldeias e toda a cidade se reunia para assistir o herege confessar o pacto com o diabo e se arrepender ou ser condenado à danação na fogueira. O facebook é o macrocosmo. Agora mesmo, uma pobre professora, usando um grande chapéu em forma de cone, está sendo dilacerada pelos que a cercam. Apanhou, bem feito. Da próxima vez trate de escolher partido melhor.

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