
Há três anos a revista inglesa “The Economist” publicou uma extensa reportagem sobre o mercado de trabalho no Brasil e sobre a produtividade do brasileiro. Sua análise não era nada favorável. A matéria intitulada “Soneca de 50 anos” deixou claro que o país parou na década de 70 e estaria longe de apresentar índices de produtividade que se equiparem a outras nações como Coreia do Sul e China.
Mais difamada do que lida, a reportagem foi tema da palestra em que o economista e reitor da universidade Positivo, José Pior Martins, abordou o futuro do Brasil após 2018, durante evento promovido pelo Instituto Ciência e Fé de Curitiba no último sábado (19).
PERDA DE TEMPO
Duas frases contidas na reportagem e severamente criticadas por políticos brasileiros serviram-lhe de parâmetro. A primeira delas: “Os brasileiros são gloriosamente improdutivos”. A segunda, dita por um empresário norte-americano com negócios no país: “Basta você aterrissar no Brasil e já começa a perder tempo”.
As declarações podem ferir os brios nacionais, à primeira vista, mas analisadas no contexto da matéria, expressam uma verdade incontornável.
E não são propriamente uma novidade. Dados fornecidos pelo IBGE, no censo de 2010, já comprovavam essa realidade.
O BRASIL ESTACIONADO
A partir da década de 1970, ou seja, há meio século, a produtividade do trabalhador brasileiro estacionou ou até mesmo caiu. Em comparação com países emergentes como Coreia do Sul, Chile e China, esse baixo desempenho é visível. Enquanto a produtividade do trabalho foi responsável por 40% do crescimento do PIB do Brasil entre 1990 e 2012, na China e na Índia o mesmo indicador foi de 91% e 67%, respectivamente.
“Na comparação da hora de trabalho entre Brasil e Estados Unidos, os dados mostram que a produtividade dos norte-americanos é de 52,23 dólares enquanto a do brasileiro é de 11,63 dólares”, diz Pio Martins.
Há fatores que explicam os magros índices de produtividade nacional. O baixo investimento em infraestrutura está entre os primeiros itens citados pelo economista. Há que considerar também a ausência de capital humano. A falta de trabalhadores especializados e o raso investimento no ensino técnico. Inclua-se nesse rol o atraso tecnológico e o desinteresse das empresas na modernização de equipamentos. A cereja do bolo, diz Pio, está relacionada ao governo. “A máquina pública só faz se retroalimentar. Qualquer investimento fora disso é contabilizado como déficit”.
REELEIÇÃO ZERO
Também fizeram parte da mesa de palestrantes do evento, o economista, PhD em Economia, fundador da antiga Estação Business School, Judas Tadeu Grassi Mendes, o ex-diretor-geral da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, e o jornalista e professor aposentado da UFPR Hélio Puglielli.
CAUSAS DA CRISE
Mendes criticou asperamente o setor público brasileiro, apontando-o como uma das principais causas do desequilíbrio das contas no Brasil. Para ele, os R$ 500 bilhões que o país deixa de investir anualmente são destinados a “sumidouros” como a folha de pagamentos do serviço público (R$ 268 bilhões) e as despesas de custeio do governo (R$ 200 bilhões). O economista, que é professor da Cesumar e tem PhD em economia rural, atacou diretamente a classe política e defendeu uma faxina geral no Congresso. “Reeleição zero. Temos que começar de novo”, disse.
NADA DE OTIMISMO
Euclides Scalco fez um balanço de sua longa carreira política e mostrou-se desesperançado com os rumos tomados pela política nacional. “Não tenho a obrigação de ser otimista. Vivi a derrubada de Getúlio Vargas, a queda de Jango, o golpe de 64. Tenho uma longa história. Exerci cargos que vão de vereador a ministro. E confesso: era mais feliz em Francisco Beltrão, como farmacêutico, do que sou hoje”.
FUNDADOR
Scalco foi, em 1995, um dos fundadores do Instituto Ciência e Fé de Curitiba, ao lado de Belmiro e Elizabeth Castor, Hélio Puglielli, Luiz Carlos Martins, Ubaldo Puppi, Newton Freire-Maia, Celso Nascimento, e eu, Aroldo M.G.Haygert, dentre outros.
DE VEREADOR A MINISTRO
Nome paradigmático da vida pública brasileira, Scalco, 86, foi ministro de Fernando Henrique Cardoso, depois de ter chefiado a Casa Civil do Paraná (Governo José Richa) e sido deputado federal. Foi fundador do PSDB.
Começou a vida pública como vereador de Beltrão. Quando universitário, foi um dos jovens que “incendiaram” as ruas do Porto Alegre, em 1954, protestando contra a morte de Getúlio Vargas.
Durante a Constituinte de 1988, Euclides Scalco – gaúcho que se mudou para o Sudoeste do Paraná no final dos anos 1950 -, foi líder e vice-líder do MDB. Teve papel capital na elaboração da Carta, sendo um dos nomes próximos de Ulysses Guimarães.
ESTÁ NO LIVRO
No mais recente livro de fôlego sobre a Constituinte de 1988, Segredos da Constituinte, de Luiz Maklouf Carvalho, Scalco dá seu depoimento sobre um capítulo especial, pouco conhecido, e no qual foi ator relevante: a tentativa de se implantar o parlamentarismo no País.
PARLAMENTARISMO
A proposta parlamentarista partira e fora alimentada por José Sarney. Coube a Scalco recolher a opinião de Mário Covas, numa noite, em São Paulo. Covas estava internado em hospital, recuperando-se de cirurgia cardíaca.
Scalco era parlamentarista.
O então governador paulista foi taxativo: “Não ao parlamentarismo” proposto por Sarney, em que, disse, claramente, não confiar.
O “não” ao parlamentarismo foi transmitido por Scalco a Ulysses Guimarães. E o assunto morreu.
CREDIBILIDADE PERDIDA
Já o jornalista Hélio Puglielli, sabidamente dono de irrestrita e bem montada capacidade crítica, preferiu referendar as afirmações dos que o antecederam, salientando a descrença dos brasileiros em relação aos políticos e reafirmando a necessidade de uma renovação geral que devolva aos representantes públicos um pouco da credibilidade perdida.
Puglielli foi, por 40 anos, editorialista dos jornais O Estado do Paraná, Gazeta do Povo e Jornal Indústria e Comércio, tendo formado gerações de jornalistas na PUCPR e na UFPR. Dirigiu a Fundação Teatro Guaíra.
Na UFPR foi diretor do Departamento de Filosofia.
VÍDEO DA PALESTRA
A palestra contou com a presença de 60 pessoas, a maioria jornalistas e professores universitários, no auditório do campus Mercês da Universidade Positivo (antiga Escola Catarina Labouré). O vídeo da palestra estará disponível no site deste jornalista, nos portais do Diário Indústria & Comércio e da Rádio Banda B, onde a coluna de Murá está hospedada.
Outras informações também podem ser encontradas na página de Aroldo Murá G.Haygert no FaceBook. A coluna é também oferecida a milhares de leitores por meio newsletter enviada diariamente.






