Por William Barbosa Sales – Há quem ainda acredite que a homossexualidade surge apenas na adolescência. Essa ideia ignora a experiência de milhares de pessoas que, desde muito cedo, já se percebiam diferentes, mesmo sem compreender exatamente o que sentiam. Eu fui uma dessas crianças.
Cresci nos anos 1980, quando não havia espaço para falar sobre diversidade, orientação sexual ou acolhimento. É importante dizer: reconhecer que existem crianças gays não significa sexualizar a infância. Crianças não vivem sua orientação sexual como adultos. O que existe é a percepção de afetos, interesses e comportamentos que fogem às expectativas impostas pela sociedade.
Muitas vezes, a descoberta não acontece por um entendimento interno, mas porque o mundo aponta essa diferença. Bastava um menino ser mais delicado, preferir brincar com meninas ou não gostar de futebol para virar alvo de piadas, apelidos e exclusão. Antes mesmo de saber o significado da palavra “gay”, muitos de nós já entendíamos que havia algo em nós que incomodava os outros.
As agressões raramente eram apenas físicas. Vinham em forma de risadas, olhares e frases como: “Não ande com ele, senão vão pensar que você também é.” Para uma criança de oito ou nove anos, esse tipo de violência deixa marcas profundas. É justamente na infância que construímos nossa autoestima. Quando o mundo nos devolve vergonha e rejeição, passamos a acreditar que existe algo errado conosco.
Décadas depois, a psicologia confirma aquilo que muitos viveram na pele: as experiências infantis moldam a vida adulta. A criança que fomos continua existindo dentro de nós.
Talvez por isso tantas pessoas se emocionem com a turnê O Último Voo da Nave, de Xuxa Meneghel. Para parte do público LGBTQIA+, ela representa muito mais do que nostalgia.

Enquanto muitos dos nossos agressores reproduziam o modelo de masculinidade esperado para a época, nós encontrávamos abrigo diante da televisão. A nave da Xuxa era um lugar simbólico onde podíamos descansar da hostilidade do mundo. Suas músicas levavam mensagens de esperança justamente quando mais precisávamos acreditar que havia um futuro possível.
Xuxa nunca soube quem éramos. Mas isso não diminui o impacto de seu trabalho na vida de tantas crianças que encontraram naquele universo colorido um raro sentimento de pertencimento.
Quarenta anos depois, muitos daqueles meninos considerados “diferentes” tornaram-se professores, médicos, advogados, artistas, engenheiros e profissionais de inúmeras áreas. Não porque o preconceito desapareceu, mas porque aprenderam a resistir.
Assistir ao O Último Voo da Nave não é apenas revisitar a infância. É reencontrar a criança que um dia acreditou que jamais seria aceita e dizer a ela: você conseguiu.
Falar sobre crianças gays não é criar uma realidade. É reconhecer uma realidade que sempre existiu. Ignorá-las nunca fez com que deixassem de existir. Apenas fez com que crescessem sozinhas.
Por isso, estarei em O Último Voo da Nave. Não apenas para rever uma apresentadora que marcou uma geração, mas para celebrar a criança que fui — e todas as outras que sobreviveram quando lhes faltava quase tudo, menos esperança.
*Willian Barbosa Sales é Biólogo, Doutor em Saúde e Meio Ambiente e Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER.
