
De Nêgo Pessoa ficaram as cinzas e as máximas do “enfant terrible” das Araucárias. Talvez a família julgue conveniente apagar a página, mas se preservá-la abrirá as portas para que as novas e velhas gerações tenham acesso às diatribes, às críticas, à sabedoria e ao notório mau humor de um jornalista, cujo talento transborda e nos faz orgulhosos.
UM PERIPATÉTICO
Os amigos lembram-se do Nêgo que era dos copos e dos cigarros. Mas isso foi há muito tempo. Em anos recentes ele era um peripatético. Falava, falava aos seus, falava a ninguém, falava às árvores e aos pássaros.
Tomara que fale aos que o visitarem em sua página.
AINDA SOBRE PESSOA: PÁSSARO DE CINCO ASAS
Informam à coluna que o João de “O Pássaro de Cinco Asas”, conto de Dalton Trevisan, é inspirado em Nêgo Pessoa. Uma releitura do conto entrega o personagem. É inegável que Dalton sempre se inspirou em amigos e em gente comum para elaborar suas narrativas. Ele é, de fato, um usurpador literário no melhor sentido. Todos os escritores o são. O João do conto e do título do livro teria, em 1974, os 30 anos que Dalton lhe dá e que coincidem com a idade de Nêgo Pessoa à época.
NO CONTO…
Ele era um garoto mimado, o mais novo e o único homem de uma prole de dez filhos dos quais restaram quatro: ele e três irmãs mais velhas. O João não trabalhava, vivia a custas da mãe, era um sonhador. A Laura emoldurada que ele vigiava pela fresta da esquina, tal como um fornicador, e nunca abordava, era a vida que ele idealizara. A Mariinha do bordel, a nua e crua realidade.
AMOR E GELADEIRA CHEIA
João queria ser técnico de futebol ou diretor de cinema. Mariinha queria amor e geladeira cheia. O conflito é inevitável. Quando a meretriz cai doente é Manolo, o cafetão, quem fica à cabeceira da cama. João voltou à antiga esquina e agora vê desenhar-se um sorriso no rosto de Laura.
Ilusão e realidade entrelaçadas. E ele se desespera porque Mariinha, aquela que lhe devota amor, é palpável. De novo despe-se a vida, e eis a mocinha de volta à casa do seu protetor. Abre a geladeira e eis que a encontra cheia de mantimentos.
UM PÁSSARO DE CINCO ASAS NÃO VOA
É aqui que Dalton dá outro destino ao personagem. Nêgo Pessoa seguiu adiante e, ainda que embevecido com suas idiossincrasias, construiu carreira no jornalismo e na literatura. João a essa altura já não é mais o Nêgo Pessoa dos sonhos desesperados. É alguém que alcança o parapeito da janela e salta. Pássaro de cinco asas.
