
ESPECIAL
Por Marcus Vinicius Gomes, jornalista
Nego Pessoa morreu na segunda-feira (14) para não incomodar ninguém no fim de semana. Jamais a preguiça espraiada do bardo afrontaria o descanso alheio. Nego nunca foi de preâmbulos. Quando dizia alguma coisa ia logo ao cerne da questão. E isso poderia significar um chute nos fundilhos.
Era um encrenqueiro da melhor cepa. No futebol, na política, na economia, no jornalismo. Certa vez encheu-se dos técnicos e disse, em alto e bom som, que deles o futebol não carecia. Por azar estava em uma mesa redonda televisiva, cercado de treinadores por todos os lados. O jeito foi sair atirando.
NÃO ERA DADO A RABISCOS
Ele nasceu em Irati por acaso. Fosse por sua vontade, escolheria Stratford-upon Avon, a terra de Shakespeare. Quando desembarcou, em Curitiba, numa tarde chuvosa como outras 364 do ano, escreveu ali, de cabeça, sua primeira crônica. Não era escritor dado a rabiscos. Escrevia em letras redondas, garrafais, sem titubear no português. Conhecia latim, francês, lia Keynes no original e até que conseguia entender tudo aquilo.
Mais do que ninguém, sabia que a economia era a mão que balançava o berço de qualquer país. Quando o presidente ia bem, resmungava no canto do Ciccarino: “é a economia, estúpido”.
SÓ PARA BÍPEDES
Foi homem de rádio e TV, mas era no texto impresso que se lambuzava. Bem ao seu estilo, deixou máxima aos leitores: “Escrevo para bípedes”. Era um recado direto àqueles que têm os pés bem fincados no chão. As mãos também.
Tangenciar nunca foi com ele, se bem que, geometricamente, tinha lá suas atividades paralelas. Era coxa-branca e fluminense, mas não necessariamente nessa ordem. Houve um tempo em que o futebol produzia filósofos dentro das quatro linhas. Foi discípulo de um deles: Adolfo Milmann, o “Russo”, sobre quem escreveu um livro (“O Sábio das Chuteiras”).
FLANAR NO FUTURO
Nego Pessoa frequentou todos os vícios, mas não foi seduzido por nenhum deles. Nos últimos anos, estava livre de todas as sombras do passado e disposto a flanar com as asas do futuro, desde que ele viesse com um manual de instruções.
Os amigos o tinham como um grande espadachim da palavra. Se bem que ele dava suas pixotadas. Um dia escreveu coluna na Gazeta em que abria o léxico contra a Diretoria do Coritiba. Já deixara bem claro que era contra os treinadores. É fácil adivinhar, portanto, o quanto ele odiava os auxiliares. Auxiliares de goleiros, de roupeiros, de massagistas, de bilheteiros, de sacripantas, de travestis, daqueles assim-assim, e foi enumerando. Doze horas depois estava na rua da amargura. Demitido e defenestrado.
NÃO SUPORTAVA RECUSAS
Sorte, ele nunca se emendou. Era o oitavo filho de uma prole de dez. Seu pai era o farmacêutico João de Mattos Pessôa, curitibano-curitibano. Sua mãe Matilde Anciutti, italiana-italiana. Fez o primário e o ginásio em Irati, o científico no Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba. Na faculdade, recusou o Direito porque o Direito o recusava. Ele não suportava recusas.
Foi um leitor ávido. Lia o que lhe caía à mão, com exceção do “Otimismo em Gotas” de O.G. Mandino. De resto fez o que jornalista sabe fazer muito bem: sobreviveu. Foi casado, teve filhos e, no fim da vida, não exigiu mais do que ela poderia lhe dar. Tinha 75 anos. Seu legado são seus escritos. Ele não desejaria mais.
