“O menino é o pai do homem.” Machado de Assis
Por Eloi Zanetti – eloizanetti@gmail.com – Obrigações diárias e interesses individuais não nos deixam perceber o sutil estado de graça que rege as relações entre nós, nossos pais e filhos. Na maioria das vezes, só conseguimos sentir este estado quando confrontamos ocasiões de intensa comoção: dificuldades, ausências, conflitos, acidentes, doenças e morte.
A não percepção desta força aumenta quando colocamos assuntos de ordem material como prioridade nos relacionamentos induzindo nossos filhos a uma péssima troca: quinquilharias em lugar de afeto. O excesso de presentes, agrados e mimos compromete o futuro, pois ao criarmos descendentes ricos, mas vazios de significados, perdemos a afetividade, o amálgama que faz a ligação entre nossas almas. – Por que não fiquei mais tempo com meus filhos? É a pergunta que todo pai um dia fará a si mesmo.
Não troque presença por quinquilharias
Troque o “agora não posso” por alguns momentos de relaxamento e de conversas com os seus entes queridos. Se a conversa não fluir, não tem importância, fiquem juntos que uma hora destrava. Nunca se esqueça que relações humanas necessitam de administração, manutenção e cultivo.
A complexidade hodierna, o excesso de informações e as exigências da pressa afastam-nos dos rituais familiares e dos seus valores inconscientes. Falta que nos faz buscar o falso consolo dos livros de auto-ajuda e os conselhos cínicos dos gurus da moda. A proposta das editorias de auto-ajuda é proporcional à carência afetiva da sociedade, fato visível nas livrarias.
Se você transmitiu o seu DNA, você não morreu
Ouvi um cientista dizer que a nossa noção de morte é um pouco equivocada: “Quando um ser vivo consegue transmitir o seu DNA e gerar um descendente, significa biologicamente que ele não morreu, pois estará presente nas células do ser gerado e nos descendentes que virão depois deste, ad eternun.” Só estaremos aqui, passados mil anos, porque as próximas gerações carregam um pouco de nós. Essa passagem de jeito de ser é que faz a permanência na Terra tão especial. Carlos Drummond de Andrade grafou sabiamente: “De tudo restou um pouco, restou um pouco do seu queixo no queixo da sua filha.”
É a cara do pai
A representatividade deste sagrado manifesta-se na maneira como seu filho segura um garfo, mexe a boca ou sorri. Repare o seu modo de andar na forma do andar da sua filha e o formato da sua mão na mão do seu neto. Como as coisas sagradas precisam ser reverenciadas, não espere o dia das mães, dos pais ou o natal para se lembrar disso. Cada vez que vir o seu menino, veja você e o seu pai se perpetuando nesta nova vida.
Por isso, quando for brigar, falar de maneira áspera, repreender um filho ou retrucar o seu pai, pense se não está brigando consigo mesmo, com a sua imagem refletida no espelho da vida. Por mais difícil que seja o relacionamento, não é melhor procurar o entendimento?
A relação entre pais e filhos é tão sagrada que o próprio criador enviou seu filho para representá-lo entre nós. E Ele sabiamente nos ensinou a orar, colocando já na primeira frase: Pai nosso que estais no céu…

Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
