segunda-feira, 10 agosto, 2026
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O trabalho dignifica o homem?

Por Vinicius Alves* – “O trabalho dignifica o homem.” A frase atravessou gerações como um princípio moral, associando o trabalho à autonomia, ao sustento, ao reconhecimento e à participação na vida social. E há algo de verdadeiro nisso: o trabalho pode oferecer pertencimento, utilidade, realização e as condições materiais para a construção de projetos que ultrapassam o próprio campo laboral. Mas considero necessário deslocar a pergunta: que condições de trabalho permitem que essa dignidade seja preservada?

A questão se torna especialmente relevante diante da expansão do esgotamento, da ansiedade e do burnout relacionados à experiência laboral. Não considero possível reduzir o sofrimento psíquico às condições de trabalho, mas tampouco compreendê-lo ignorando as condições econômicas, sociais e institucionais nas quais os sujeitos vivem. Han, ao pensar a sociedade do desempenho, descreve um sujeito que incorpora a própria exigência de produzir, melhorar e superar-se continuamente. A coerção torna-se mais sofisticada justamente porque pode aparecer sob a forma da liberdade: já não é necessariamente alguém que nos ordena a produzir mais; somos nós mesmos que nos cobramos incessantemente.

A lógica neoliberal aprofunda essa operação ao apresentar o indivíduo como principal responsável pela própria trajetória. O sucesso aparece como mérito; o fracasso, como insuficiência. Condições históricas, econômicas e sociais são retiradas da equação, e aquilo que também é estrutural retorna ao sujeito como responsabilidade individual. O sofrimento produzido socialmente pode, assim, ser experimentado como falha pessoal.

Mas a lógica contemporânea não se encerra na produção. Ela encontra no consumo seu complemento. Trabalhamos para obter recursos, enquanto consumimos não apenas para satisfazer necessidades, mas também para construir identidades, obter reconhecimento e participar do tecido social.

Esse fenômeno não nasceu no capitalismo contemporâneo. O mimetismo social acompanha a história humana: grupos procuram incorporar objetos, vestimentas, comportamentos, gostos e estilos associados às posições socialmente valorizadas. O que considero propriamente contemporâneo é a radicalização desse processo. O capitalismo amplia a produção e a circulação desses signos, enquanto as redes sociais transformam a própria vida em imagem e comparação permanente. Corpos, viagens, casas, roupas, experiências e estilos de vida passam a circular como referências de uma existência desejável.

O objeto deixa de ser apenas objeto e passa a funcionar como signo. Consumimos coisas, mas também consumimos símbolos de pertencimento.

É nesse ponto que a psicanálise oferece uma chave importante. Determinados signos socialmente valorizados podem ser incorporados como ideais, produzindo uma distância entre aquilo que somos e aquilo que acreditamos que deveríamos ser. O consumo pode então aparecer como tentativa de diminuir essa distância: adquirir determinado objeto, frequentar determinado lugar ou alcançar determinado estilo de vida pode produzir a sensação de aproximação em relação à imagem que aprendemos a reconhecer como desejável.

O desejo de vínculo, reconhecimento e pertencimento é humano. O que precisa ser interrogado é a maneira como esses desejos passam a ser mediados por mercadorias e signos de distinção. A questão não está simplesmente em consumir, mas nas mediações mercantilizadas do desejo.

Vinicius Alves é psicólogo clínico de orientação psicanalítica e junguiana

Quando a distância entre aquilo que possuímos e aquilo que aprendemos a desejar se torna economicamente insustentável, o crédito oferece uma ponte. O sujeito antecipa materialmente uma posição que ainda não pode sustentar e, para mantê-la, compromete parcelas futuras de seu trabalho. Forma-se um circuito: desejo, consumo, endividamento, trabalho e novamente consumo. Um circuito econômico, mas também psíquico, atravessado por falta, reconhecimento, autoestima e pertencimento.

É preciso, contudo, evitar uma generalização. Nem todos trabalham para consumir. Há pessoas que trabalham para realizar projetos e ampliar suas possibilidades, mas há também milhões que trabalham fundamentalmente para sobreviver. Para quem vive em profunda precariedade, o salário representa antes de tudo alimentação, moradia, transporte, medicamentos e sustento familiar. Não podemos confundir consumo como forma de distinção com consumo como satisfação de necessidades fundamentais, assim como não podemos romantizar a privação em nome de uma crítica ao consumismo. A simplicidade voluntária de quem possui condições materiais é radicalmente diferente da privação compulsória de quem não as possui.

Por isso, pensar o trabalho exige preservar sua dimensão econômica e política. O capitalismo produz desigualdades profundas entre indivíduos, classes e nações, e essas desigualdades determinam as possibilidades concretas de cada sujeito. A subjetividade não existe fora da história e das relações sociais, mas tampouco pode ser reduzida a elas. É justamente nessa tensão entre estrutura e subjetividade que uma reflexão psicológica sobre o trabalho encontra sua potência.

E é nesse ponto que retorno à frase que iniciou esta reflexão. Não é o trabalho que confere dignidade ao homem. O trabalho pode participar profundamente de uma vida digna, oferecendo sustento, pertencimento, reconhecimento, criação e sentido; mas a dignidade do sujeito precede sua inserção no circuito produtivo.

Essa distinção é fundamental. O desempregado pode sentir que perdeu não apenas sua renda, mas também seu lugar social. O idoso pode experimentar inutilidade quando deixa de ser economicamente produtivo. Aquele que não pode trabalhar pode interpretar sua própria existência como um peso. Quando a produtividade se transforma em medida do valor humano, deixar de produzir passa a ser vivido como perda de dignidade.

Precisamos afirmar o contrário: a dignidade não é uma recompensa concedida ao indivíduo produtivo. O ser humano não se torna digno porque trabalha, assim como não deixa de ser digno porque está desempregado, envelheceu ou não pode produzir.

Por isso, um trabalho digno não é aquele em que alguém demonstra sua grandeza suportando o insuportável. É aquele cujas próprias condições preservam o sujeito como sujeito. O empregador contrata sua força de trabalho dentro de determinados limites; não sua pessoa inteira. O salário não compra sua subjetividade, sua disponibilidade ilimitada, sua vida para além do trabalho ou sua dignidade.

Penso que precisamos, portanto, recolocar o trabalho em seu devido lugar. O trabalho é uma dimensão importante da vida humana, mas a vida não pode ser reduzida ao trabalho. Produzir é importante, consumir pode ser necessário e prazeroso, construir uma carreira pode possuir enorme significado; nenhuma dessas dimensões, entretanto, deveria tornar-se a medida absoluta pela qual determinamos quem somos e quanto valemos. O ser humano não é digno porque produz. Ele produz, trabalha, cria e participa do mundo porque já é digno.

*Vinicius Alves é psicólogo clínico de orientação psicanalítica e junguiana, formado pela Universidade Tuiuti do Paraná, com pós-graduação em Neuropsicologia pela Unicuritiba. Tem experiência consolidada no atendimento de diferentes faixas etárias e estuda as relações entre subjetividade, cultura e questões contemporâneas, compreendendo o sofrimento psíquico para além do indivíduo isolado. Seu trabalho é pautado pela escuta da relação dinâmica entre coletividade e singularidade e pela compreensão dos diferentes processos e momentos da vida. @vinicius.alves.psi

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