sábado, 9 maio, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: DO ANTIPÓ VIESTE, AO ANTIPÓ RETORNARÁS

Marcus Vinicius Gomes (*)

Quando Dalton morrer, não sei se duro ou carbonável, não lhe deem nome de rua. Matem-no antes a pedrada, daquela pedra odiosa do petit-pavê, mas não lhe deem nome de rua. Curitiba, linhas certas faixas tortas.

Quem é que pisca aqui? Os carros não. Dobre à direita e o que vai piscando, quando vai, é a seta da esquerda. Ah, motoristas analfabetos ideológicos.

Vrummmm. Lá se foi o idiota veloz. Morre um na esquina da sicrano com a fulano de tal e nascem dez. Daltônicos de farol, que aqui, só aqui, é sinaleiro. Quantas ruas mais nas calçadas estreitas? Quantos carros mais em suas vias odiosas? Rode a 40 e lhe cegam os olhos no espelho retrovisor. Ninguém lhe vê. Ninguém os vê. Morcegos chupando o sangue quente das carótidas. Escondidos sob a película escura dos vidros dos carros. Quem sabe não vai ali o estuprador da Lapa? O estripador da Riachuelo. Que vá ao diabo, que vão ao diabo sem mim.

Motorista curitiboca, quando canta, aperta a buzina exato um milésimo de segundo depois do sinal verde. Ai de ti cavaquinho. Pobre da velhinha míope de muletas flagrada no ponto equidistante da Floriano com a Deodoro. Pernas pra que te quero. Ali perneta correu, ali surdinho ouviu, ali ceguinho enxergou.

Curitibano que se preze acorda às seis da manhã no frio tiritante do verão, pega o carro e percorre um quilômetro e meio até o parque para a caminhada matinal. É a fina ironia da cidade ecológica. Na ida atropela o gambá do lote 486 da quadra 8 da região C-10. Na volta põe fim ao último sopro de vida do cachorro sarnento cujo nome era Vadio. Curitiba de cães atropelados. Os cães de rua. Os cães de raça. Não há luta de classes sob suas rodas. Do antipó vieste. Ao antipó retornarás.

Ah, bela mocinha do passeio, de coxas gordas e sainha franzida. Eis o possante bordô a seu dispor. Rodas cromadas, freio a disco, bancos de couro e 833 cavalos, afora o Rocinante aqui.

Marcus Vinicius Gomes
Marcus Vinicius Gomes

Nunca mais vielas estreitas, nunca mais cadeiras na calçada, nunca mais as roupas no varal e, dentre elas, a calcinha lilás de renda, perpassada pela luz do sol. Curitiba, por favor, não me dê a mão. Não quero nada.

Curitiba foi. Curitiba é, sempre será, o ronco chato na esquina da minha manhã.

(*) Marcus Vinicius Gomes é jornalista. Crônica premiada no concurso nacional de crônicas Laura Ferreira do Nascimento, em São Paulo.

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