“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” — Êxodo 20:12
Por Eloi Zanetti (contato: eloizanetti@gmail.com) – Estava montando os extensores de um cortador de grama — uma tarefa que parece fácil, mas se complica por ser cheia de parafusos, arruelas, cabos e encaixes. Terminei o trabalho e fui consertar outra máquina. Feito isso, guardei as ferramentas, pois gosto de deixá-las sempre limpas e organizadas. Ao segurar um alicate de pressão, parei. Naquele instante, fui tomado pela lembrança dos dias em que, ainda menino, ajudava meu pai em sua oficina.
Comecei o meu aprendizado de mecânica com ele aos nove anos de idade. Lembrei-me de que o local de trabalho ficava a umas quinze quadras de nossa casa. Íamos a pé; meu pai caminhava à frente, em passos rápidos, e eu precisava correr às vezes para conseguir alcançá-lo. Na época, eu reclamava daquela caminhada, mas hoje essas são algumas das minhas melhores recordações. Tempos depois, meu pai comprou uma bicicleta e eu passei a ir na garupa; mais alguns meses e eu já podia acompanhá-lo com a minha própria bicicleta.
Segurar aquele alicate detonou a memória de suas explicações minuciosas sobre os processos e métodos da mecânica. Eram verdadeiras aulas, ministradas tanto para mim quanto para meu primo e tantos outros aprendizes que ele ajudou a formar. Naquele tempo, não existiam escolas técnicas para menores, nem as leis trabalhistas atuais que impedem profissionais de acolherem adolescentes em suas oficinas para ensinar um ofício. Os pais levavam seus filhos e pediam: “Senhor Zanetti, o senhor pode ensinar sua profissão ao meu filho?“. Posso contar nos dedos das mãos quantos bons profissionais se formaram naquela bendita escola: a Auto Elétrica Zanetti.
Lembrei-me, com nitidez, da função de cada chave, dos diferentes tipos de roscas de parafusos, do mecanismo de um bendix e de como um induzido gera energia, além de muitos outros ensinamentos. Tudo isso passou rápido pelo meu pensamento. Foi então que me veio o insight e ficou perfeitamente claro para mim o real significado da frase: “Honra teu pai”.
Compreendi que honrar um pai vai muito além de visitá-lo ou erguer monumentos à sua memória. Honrar o meu pai significa aplicar, no presente, o capricho, a disciplina e a integridade que ele me ensinou no passado. É fazer bem-feito cada trabalho do meu dia a dia, seja preparando um almoço, cuidando do jardim, consertando algo em casa ou escrevendo livros — que é a minha ocupação atual.
Honrar o meu pai é manter viva a sua escola de generosidade, apoiando e aconselhando aqueles que hoje buscam orientação em suas carreiras, do mesmo modo que ele fazia com os jovens que batiam à sua porta. Cada ferramenta que guardo limpa e cada texto que escrevo com dedicação são extensões do respeito que tenho pela sua história.
De vez em quando, essas memórias emergem. Eu as escrevo e tento decifrar o que elas querem me dizer. Como o nosso presente foi totalmente construído no passado, é para lá que devemos olhar para resgatar as nossas verdades mais profundas.


Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
