Por Marilia Mesquita – O futebol brasileiro vive um autoengano perigoso. Enquanto Argentina e Espanha disputavam o topo do mundo do esporte, parcela expressiva da torcida prefere gastar energia em debates rasos nas redes sociais, confortando-se no velho mantra do pentacampeonato. “Quem tem mais tem cinco”. Tem, sim. E daí? O problema é que faz mais de vinte anos que o Brasil não adiciona uma estrela sequer ao peito. A glória de 2002 virou muleta retórica para vencer discussões na internet, e não trunfo dentro de campo.
A presença da Argentina em mais uma decisão expõe apenas o básico: no futebol contemporâneo, organização e continuidade metodológica sobrepõem-se à mera tradição. Chegar à segunda final consecutiva não é resultado de um futebol espetacular, mas sim de um trabalho que teve sequência e entrega dentro de campo. Enquanto o rival apenas cumpriu seu papel e avançou, a Seleção Brasileira permanece estagnada, sustentando-se na nostalgia e na ilusão de que a história, por si só, garante resultados.
A queda diante da Noruega escancarou essa fragilidade. O Brasil não foi superado por um favorito ao título, mas sim por uma equipe organizada que soube explorar a incapacidade brasileira de sustentar a própria reputação. O peso da camisa ainda impressiona nos livros de história; dentro das quatro linhas, contudo, já não impõe o mesmo respeito.
Essa postura defensiva reflete a lógica do aluno que reprova no exame final, mas tenta consolar a própria frustração ostentando uma medalha do ensino fundamental. No esporte de alto rendimento, porém, memória afetiva não soma pontos, não garante vaga nas finais e não ergue taças.
Há uma arrogância perigosa instalada no futebol brasileiro. Agimos como se a camisa ainda ganhasse jogos sozinha, como se a tradição fosse suficiente para compensar falta de planejamento, improviso e decisões equivocadas. Enquanto isso, rivais que antes olhavam para o Brasil em busca de inspiração hoje servem de exemplo de organização e competitividade. É difícil admitir, mas talvez a maior diferença entre Brasil e Argentina atualmente não esteja no talento dos jogadores, e sim na seriedade com que cada um trata o próprio futebol.
As cinco estrelas continuarão gravadas no escudo. Ninguém apaga o passado. Contudo, elas não entram em campo. O futebol moderno não distribui conquistas por herança nem respeita currículos antigos; premia quem se planeja, compete com rigor e evolui. Se o ápice do engajamento do torcedor é ostentar um feito de duas décadas atrás, o maior adversário da Seleção não é a Espanha ou a Argentina. É a incapacidade do próprio futebol brasileiro de aceitar que viver de memórias nunca foi estratégia para construir o futuro.

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
