Por Aline Cambuy – Aos 28 anos, Elisa Santin já viveu experiências que muita gente levaria décadas para acumular. Bacharel em Direito, empreendedora por vocação e hoje head comercial da startup Accessa, ela vem conquistando espaço em dois universos tradicionalmente dominados por homens: o da tecnologia e o da cibersegurança jurídica. Enquanto lidera a expansão da empresa pelo país, também divide a rotina entre reuniões, apresentações para clientes, sessões de quimioterapia, exames e consultas médicas.
A história poderia começar pela doença, mas seria injusto com a protagonista. Antes de ser paciente oncológica, Elisa é uma mulher que construiu sua carreira identificando problemas e transformando-os em soluções.
Desde o início da carreira, Elisa conviveu com os problemas provocados pelo compartilhamento de certificados digitais e senhas entre equipes, uma prática comum que gera riscos de segurança e perda de controle sobre os acessos.
Foi justamente dessa experiência que nasceu a ideia da Accessa. Ao lado de Willian Borecki, que desenvolveu a solução tecnológica a partir de uma necessidade vivida no mercado jurídico, Elisa ajudou a transformar a iniciativa em um produto. Coube a ela estruturar o modelo de negócio, apresentar o projeto a um grupo empresarial que conhecia de perto essa realidade e assumir a liderança da expansão da startup. Para Elisa, empreender significa transformar problemas em soluções. “Todo empreendedorismo nasce de resolver uma dor real.”
Hoje, a Accessa oferece uma plataforma que controla e registra o compartilhamento de senhas, certificados digitais e acessos corporativos, reduzindo riscos de segurança e garantindo rastreabilidade sobre quem acessou cada informação. Embora tenha começado pelo mercado jurídico, a solução foi desenvolvida para atender organizações de diversos segmentos. Agora, o desafio é ganhar escala. A expectativa é acelerar a expansão comercial e consolidar a Accessa como referência nacional em governança de acessos, ampliando a atuação para contabilidades, pequenas e médias empresas e outros segmentos.
Embora o mercado jurídico ainda seja resistente à adoção de novas tecnologias, ela acredita que essa realidade está mudando. “O maior desafio é conseguir a atenção do advogado. Uma vez que ele nos ouve e entende como funciona, a receptividade é imediata, porque o risco do compartilhamento descontrolado, hoje, é visível.”
Liderar uma empresa de tecnologia sendo uma mulher jovem também trouxe aprendizados. “Existe, sim, um desafio maior para mulheres em posições de liderança, principalmente em um setor dominado por homens. Precisamos ser mais firmes e, com frequência, somos mal interpretadas quando demonstramos autoridade.”
Propósito que move

O propósito que a move nos negócios é o mesmo que hoje a ajuda a enfrentar o momento mais difícil da vida. Em entrevista concedida à coluna, Elisa abriu espaço para falar sobre um aspecto pouco conhecido de sua trajetória. Paciente oncológica desde 2022, ela recebeu a notícia da remissão em 2024. Neste ano, porém, veio a confirmação da recidiva, com metástase. Ainda assim, decidiu que a doença não definiria quem ela é.
Para ela, continuar trabalhando também faz parte do tratamento. “O trabalho é muito importante para mim porque me faz sentir útil e relevante socialmente. Trabalho respeitando os limites do meu corpo e da minha agenda. A saúde vem sempre em primeiro lugar, mas, dentro do possível, procuro me manter presente porque isso me faz bem e ajuda no tratamento.”
A fé é outro pilar que sustenta sua caminhada. “Deus ocupa o centro da minha vida, e é a força que Ele me dá que me permite seguir em frente.”
Quando perguntei o que diria a outras pessoas que enfrentam um tratamento de saúde sem abrir mão dos próprios sonhos, a resposta veio sem hesitação. “Acredito que devemos fazer o tratamento e cuidar da saúde sem abrir mão da própria ambição, dos próprios sonhos e do próprio propósito. Vai haver dias mais difíceis, em que é preciso respeitar o corpo e se resguardar, mas, nos dias em que estivermos bem, precisamos continuar correndo atrás dos nossos sonhos.”
Antes de encerrar a conversa, resumiu em uma frase a forma como escolheu atravessar este momento da vida: “Ninguém é feliz vivendo apenas em função da própria saúde, esperando a cura chegar para só então viver.”
Se você conhece uma história inspiradora de gente ou de uma empresa que mereça ser contada, ou se tem uma sugestão de tema que gostaria de ver por aqui, escreva para negociosegente@gmail.com. Vai ser um prazer te ouvir!

*Aline Cambuy é jornalista com mais de 20 anos de experiência e atua na área da comunicação empresarial. Estudante de Psicologia, une seu olhar crítico e humano para construir narrativas que conectam pessoas e negócios.
