CMC – “Quem conta a história de uma cidade pertence a ela”. Foi assim que a jornalista Dulcinéia Novaes resumiu, no plenário da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), a relação que construiu com a capital paranaense desde que chegou à cidade, em 1987. Nesta quinta-feira (18), ela recebeu o título de Cidadã Honorária de Curitiba, em sessão solene presidida pela vereadora Giorgia Prates – Mandata Preta (PT).
A homenagem foi concedida pelo Decreto Legislativo 31/2025, originado do projeto de decreto legislativo de autoria de Giorgia Prates e do vereador Jasson Goulart (Republicanos). A proposição reconhece a contribuição de Dulcinéia Novaes para o jornalismo, a educação, a cultura, a valorização da diversidade e a representatividade na comunicação paranaense.
Formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Dulcinéia iniciou a carreira na Folha de Londrina e, em 1981, passou a integrar a equipe da RPC, afiliada da Rede Globo no Paraná. Em 1987, transferiu-se para Curitiba como repórter do Jornal Nacional. Também é especialista em Marketing pela FAE Business School, mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná e atuou como professora universitária e de pós-graduação.
“A honra é minha e o compromisso é de retribuir”

Na tribuna, Dulcinéia disse que receber a honraria significava “coroar um ciclo” iniciado em outubro de 1987, quando chegou a Curitiba “com mais perguntas do que respostas”. Ao agradecer aos autores da homenagem, afirmou que o reconhecimento alcança uma trajetória “construída nas ruas, nas redações, nas histórias desta cidade”.
“A honra é minha e o compromisso é de retribuir com o trabalho, que é o que eu tenho feito sempre”, afirmou. Para a jornalista, exercer a profissão é “escolher acordar todo dia para contar a história de gente que não costuma estar no centro dela”, “ouvir quem ninguém ouve”, “perguntar o que incomoda” e “devolver à cidade a imagem dela mesma, com muita honestidade”.
Dulcinéia também relacionou a homenagem ao lugar ocupado por mulheres negras no jornalismo. “Por muito tempo, o jornalismo no Brasil falou sobre nós, mas sem nós. Hoje eu falo de dentro”, disse. Segundo ela, Curitiba abriu espaço para que isso acontecesse pela tela da RPC, emissora em que construiu parte central de sua trajetória profissional.
Ao lembrar a cobertura de desocupações, temporais, geadas, transporte público, comunidades e histórias cotidianas, a homenageada defendeu um jornalismo feito nas ruas. “Foi aqui que eu aprendi que notícia boa é notícia também, que jornalismo não se faz só de gabinete, de coletivas de imprensa. Se faz de rua molhada, de geada, de campos congelados às 5 da manhã, de ruas alagadas depois de um temporal”, declarou.
A jornalista dedicou o título à família, à mãe, Maria Aparecida Novaes Felizardo, ao marido, Cleres Vieira, aos filhos Fábio Vinícius e Flávio Augusto, aos colegas da RPC e ao público que confiou a ela histórias, dores e esperanças. “Sem essas pessoas, não existe jornalismo que valha”, afirmou. “Este título eu considero que é uma linha de chegada, é um compromisso de continuar fazendo o jornalismo que não foge da rua, que não apaga a periferia, que não tem medo de perguntar.”
Representatividade e memória viva de Curitiba

Autora da homenagem, Giorgia Prates afirmou que a solenidade realizava um sonho pessoal e político. Antes de exercer mandato parlamentar, a vereadora atuou como fotojornalista e disse que encontrava Dulcinéia em coberturas de rua, muitas vezes em ambientes nos quais eram poucas as mulheres negras trabalhando.
“Dulcinéia não é apenas uma profissional da comunicação, ela é parte da memória viva dessa cidade”, disse Giorgia. Para a vereadora, a jornalista ocupou espaços historicamente negados à população negra, em especial às mulheres negras, e transformou sua presença “em potência, em referência e em legado”.
Giorgia também destacou que a homenagem reconhecia a mulher, além da profissional. “Representatividade não é uma palavra da moda. Representatividade é sobrevivência, é possibilidade e é futuro”, afirmou. “Cada mulher hoje que entra em uma universidade, em uma redação, em um espaço de poder ou em qualquer ambiente onde antes não se via representada carrega um pouco da força de mulheres como Dulcinéia Novaes”.
A vereadora relembrou ainda uma cobertura de reintegração de posse em que, depois da saída das equipes de reportagem, viu Dulcinéia retornar ao local para entregar uma cesta básica a uma família. Para Giorgia, a cena resumiu a sensibilidade da jornalista diante das pessoas retratadas nas matérias. “É muito bonito quando alguém não esquece o lado humano de quem está ali e do que fica depois que a gente vai embora“, disse.
Jasson destaca trajetória na televisão

Coautor da proposição, Jasson Goulart também falou da convivência profissional com Dulcinéia. Jornalista, o vereador trabalhou por quase 25 anos na RPC e afirmou que, quando chegou à emissora, ela já era uma referência para os colegas.
“Dulcinéia sempre foi um exemplo, uma inspiração para todos nós”, disse Jasson. Ele destacou o estilo popular e direto da homenageada, a forma de conduzir reportagens e a maneira simples com que ela se relaciona com o público. O vereador também lembrou que Wilson Serra, presente na sessão, foi quem convidou Dulcinéia, em Londrina, para trabalhar na televisão.
Jasson afirmou que a homenagem reconhece uma história de vida vinculada à memória de Curitiba, do Paraná e do país. “Quem não tem história para contar, quem não tem cultura, não é nada. Nós precisamos ter memória, cultura, lembrança e bons exemplos”, declarou.
Homenagens
A sessão solene também contou com homenagens de colegas, representantes da categoria e familiares. Aline Reis, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, afirmou que o reconhecimento a Dulcinéia também alcança outras trabalhadoras da comunicação. A jornalista e fotojornalista Fernanda Castro destacou a capacidade de Dulcinéia de transmitir emoção e humanidade.
O jornalista e ex-vereador Herivelton Oliveira lembrou a trajetória da homenageada no telejornalismo e o carinho que ela recebe do público. “Não é você que está ganhando o título de Cidadã Honorária de Curitiba. É Curitiba que está ganhando você como cidadã premium da cidade”, disse.
