Por Eliaquim Junior – O famoso astrônomo Carl Sagan disse uma vez: “o universo é muito grande. Se somos nós, isso é um tremendo desperdício de espaço”. Steven Spielberg parece ter levado essa frase para o coração há décadas e construiu boa parte de sua filmografia em torno dela, de Contatos Imediatos do Terceiro Grau a Guerra dos Mundos até a ótima minissérie Taken.
Seu novo filme, Dia D (Disclosure Day, 2026), volta a olhar para as estrelas, mas agora com uma pergunta um pouco mais desconfortável: e se a existência de extraterrestres fosse finalmente confirmada? Estaríamos preparados para isso? Conseguiríamos aceitar esses visitantes? Afinal, em pleno século XXI, anda faltando empatia, isto é, ainda estamos tentando descobrir como conviver com pessoas que torcem para times diferentes.
O roteiro de David Koepp por vezes não acompanha a ambição dessa premissa. Há diálogos frágeis e alguns momentos de ingenuidade que parecem ter escapado de uma realidade paralela mais otimista. Mas estamos falando de Spielberg, um diretor que consegue transformar uma simples movimentação de câmera em espetáculo. Sua habilidade para conduzir a narrativa, somada a um talento quase sobrenatural para criar sequências de ação memoráveis, faz com que as falhas percam parte da força.

Assim como em Contatos Imediatos (1977), no qual o protagonista é consumido por uma obsessão que ele próprio não compreende, aqui é a personagem de Emily Blunt quem carrega a sensação de que existe algo maior esperando por ela. Se alguém saiu de O Diabo Veste Prada 2 reclamando que ela merecia mais tempo de tela, pode ficar tranquilo: Spielberg ouviu esse apelo. Sua personagem é o coração do filme, e é tão carismática e com tanto potencial que poderia lhe render uma série de TV.
Ainda na autorreferência, Spielberg faz algo que poucos diretores podem fazer sem parecer arrogantes: copia a si mesmo. E funciona. Há um aceno claro a uma sequência de Encurralado (1971), seu primeiro longa-metragem, envolvendo carros e um trem. A diferença é que a homenagem dura apenas alguns instantes, porque logo a cena toma um rumo próprio e se transforma em uma das sequências mais impressionantes vistas no cinema em 2026. Spielberg revisita o passado, mas não mora nele.
Dia D possui fragilidades em sua própria premissa, o que pode tornar a jornada previsível e frustrante, já que o dia da revelação é esperado pelo espectador desde o início do filme. Ainda assim, a meu ver, o grande mérito da obra está no caminho, não no destino. O que emociona e empolga é acompanhar os protagonistas em uma fuga em busca da verdade. Ademais, é um deleite visual que apenas Spielberg, com toda sua sabedoria em compor mise en scène incríveis, poderia proporcionar.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.
