Por Zair Schuster (*)

O 16 de julho de 2017 nos remete aos sete anos da morte misteriosa do escritor paranaense Yves Hublet, autor de obras infanto-juvenis de fábulas ecológicas e fundador da Associação Cultural de Autores Independentes. Suas obras, talvez não tenham merecido muito espaço na mídia tanto quanto o inusitado que ele praticou no interior de um dos corredores da Câmara Federal no dia 29 de novembro de 2005.
Foi um dia histórico: as duas bengaladas desferidas na cabeça e nas costas do então deputado federal José Dirceu, o provedor da corrupção, um dia antes de ser cassado e de ter seus direitos políticos suspensos.
Mau caráter e corrupto compuseram o destempero verbal de Yves Hublet como acompanhamento das duas bengaladas. Sem creme de chantilly, por sinal.
DEMOCRA, A CULPADA
José Dirceu culpou a democracia pelo ato impulsivo do escritor que, por sinal, lhe custou muitas amarguras e aborrecimentos. Não teve mais tranquilidade, nem horas de paz, revelou seu editor Airo Zamoner.
Portador de pertinaz doença, foi obrigado a se mudar para a Bélgica, pois tinha dupla cidadania, fixando-se em Charleroi, onde tinha pequena propriedade. Retornou ao Brasil para tratar de assuntos particulares em Curitiba, Rio de Janeiro e em Brasília, onde, alguns dias depois de lá chegar, ao retornar para a Bélgica foi preso, acusado de porte ilegal de armas: duas garruchas desmontadas, herança da família.
Como ele mesmo queria, acabou ficando por aqui, no Brasil, de onde não pretendia sair. Ficou. Porém, não da maneira de como gostaria.
MORTE ESTRANHA
Não pretendemos entrar na questão das estranhas circunstâncias da morte de Yves, mas no fato de que as patéticas bengaladas no escudeiro do mensalão podem significar um ato de patriotismo. E que qualquer brasileiro gostaria de bisar.
Ou até mesmo, lembrando a expressão de Diogo Mainardi, poderia significar o ato de puxar a descarga do banheiro e mandar para as profundezas as imundícies e os dejetos da mediocridade política ainda insepultos.
Mas, tal descarga não funcionou. Foi apenas um espasmo. As mazelas continuam. Continuamos entregues a um mísero ceticismo. E por causa da tal democracia que o ficha suja defende, o vemos sorridente, portando uma tornozeleira eletrônica, como se fosse um deus, venerado por gente do mesmo calibre, companheiros de trampolinagens que infelicitam o nosso país, todos os quais se colocam acima da lei.
BENGALADA EM DIRCEU
A bengalada que Yves impôs a José Dirceu, não foi como querem alguns, um gesto achamboado, muito menos infrene ou provocativo, mas pleno de coragem e patriotismo. Yves não deixou apenas bem elaboradas obras infanto-juvenis, que enriquecem bibliotecas de muitas escolas. Mas deixou-nos um símbolo: a sua bengala, que seu amigo das últimas horas, Rômulo Marinho, transformou num símbolo da luta, contra as maquinações da mediocridade política que assola e infelicita o país.
Adendo: estranhamente, não permitiram autópsia do seu corpo, que está sepultado no Cemitério Campo da Esperança, Asa Sul, de Brasília, lote 0208, quadra 02.032.
(*) ZAIR SCHUSTER, jornalista, pesquisador da História do Saneamento do Século 20, e de questões democráticas.
