
Em primeiro lugar na lista de livros mais vendidos no gênero autoajuda e esoterismo, o livro “Batalha Espiritual” (Petra, 176 págs., R$ 24,90), do Padre Reginaldo Manzotti, devolve o confronto entre o bem e o mal à religião católica. Era um tema que vinha se tornando tabu.
Sob tiroteio de denúncias de corrupção em alguns de seus setores, e de pedofilia, a Igreja Católica evitou, nos últimos anos, retomar o tema do Diabo, ‘até porque ele parecia, em parte, confundir-se com o bem preconizado por seus membros’, observa atilado jornalista.
O VÉU PÉRFIDO
Só a história recente, com a ascensão do Papa Francisco, parece dissipar essa nuvem de tempestade. Trata-se, contudo, de um longo caminho. A série “The Keepers” exibida pela Netflix é especialmente didática, alguns diriam didática demais, ao demonstrar, no relato das vítimas, o quanto o pérfido pode se esconder sob o véu da placidez e bondade dos clérigos. Clérigos de todos os matizes e muitas denominações, para as acusações não ficarem apenas contra a Igreja Católica que, apesar de tudo, ainda aparece como detentora de grande força moral (na pacificação das FARC, na Colômbia, por exemplo, ela foi capital).

O BEM E O MAL
O livro do padre Reginaldo Manzotti, que já vendeu 3 milhões de exemplares, propõe-se a discutir o binômio do bem e o mal a partir dos evangelhos e das bulas papais. Não é missão fácil. O Diabo, assim como o conhecemos, aquele que induz à tentação e à perdição, é descrito apenas uma vez no Novo Testamento – três no Velho. O que produz em malefício, porém, perpassa por todos os livros religiosos.
O MAL É UM SER VIVO
Diz o Papa Paulo VI em novembro de 1972: “O mal já não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Terrível realidade. Misterioso e assustador”.
É nesse relato que está incrustado o livro de Reginaldo Manzotti. De certa forma, ele parece reaver o eterno combate travado entre a luz e as trevas, sem deixar espaço para os argumentos daqueles que só depositam sua fé no divino-positivo e descreem do que lhes parece negativo e desprezível, como se acreditar no bem os isentasse da crença na contrapartida.
MISSA PARA MILHARES

Manzotti diz que isso não é possível. Para acreditar em Deus é preciso acreditar também no Diabo e no lado sombrio que ele representa. A capa do livro não deixa dúvida sobre as intenções do padre, cujas pregações na paróquia do Guadalupe, no centro de Curitiba, o fizeram expandir seu trabalho em redes de TV, emissoras de rádio, jornais, livros e missas reunindo milhares de pessoas em todo o país.
FUNDO SOMBRIO
De fundo sombrio, em tons de cinza que lembram as criptas das antigas igrejas, a capa do livro, mostra Reginaldo Manzotti olhando, em primeiro plano, diretamente para o leitor. Lembra, nas intenções e não na imagem, a silhueta do padre Lankester Merrin, no filme “O Exorcista”, que sob um poste de luz, mira a janela onde selará um embate religioso de trágicas consequências. Talvez Manzotti, em seu livro, queira-nos alertar para um confronto que, na visão católica, parece selado e irreversível. E que se dá no dia a dia.
