sexta-feira, 8 maio, 2026
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NÊGO PESSOA, O IRREVERENTE BARDO QUE IRATI GEROU

Carlos Alberto Pessoa
Carlos Alberto Pessoa

Nêgo Pessoa, o Carlos Alberto, sempre cantou em outra freguesia. Jamais na que o aceitasse como sócio. Em um programa esportivo, certa vez, defendeu o fim dos técnicos. Técnico para quê? Se ele finge que dá instruções à beira do gramado e os jogadores fingem que ouvem. Deu um rebu. No programa seguinte, a cadeira de Nêgo estava vazia.

Ele sempre foi assim. É até hoje. Tem lá os seus dias de bardo de Albion. Mas está mais para Django. Não perdoa, mata. Em um sábado chegou fulo da vida na redação da Gazeta do Povo. Estava inconformado com o número de auxiliares que o Coritiba havia contratado. Frise-se: Nêgo Pessoa nasceu em Irati, doou seu coração ao Fluminense e seu espírito ao Coritiba. É sério. Qualquer mesa branca pode atestar.

“AUXILIAR DO TRAVESTI”

Sentou-se diante do computador e compôs 600 palavras em dez minutos. Era um esculacho na diretoria do Coritiba. Ele listava todos os cargos pendurados no departamento de futebol. Os que existiam e os que não existiam. Inclusive o auxiliar do travesti do preparador de goleiros.

Deu um rebu. Na semana seguinte, ele já não integrava mais o escrete de colunistas do jornal.

Antes mesmo desse episódio, Nêgo, que já não dava muita importância para os leitores (ora, os leitores), havia se pegado com uma torcedora do Coritiba, em troca de e-mails frenética.  A certa altura, ela escorregou no português e ele tascou, impiedoso: “Desculpe, só escrevo para bípedes”.

ORTODOXO

Nêgo leu Keynes, Marx, Confúcio, Aristóteles, Sun Tzu, Corin Tellado, Marx, Maquiavel, Carlos Zéfiro, Adam Smith, Nietzche, Joyce, Fitzgerald.

Nada lhe escapou. Nas colunas de economia, no site, nas redes sociais, clama por ortodoxia. É tudo o que ele quer. Ele mesmo cansou de ser moderno, quer ser eterno, desde que ortodoxo como uma caixa de Maizena.

ITINERÁRIO

Leu também Theilhard de Chardin, cujo conteúdo, acredito, acabou influenciando-o a deixar a categoria dos ateus e entrar na dos agnósticos.

E meses atrás, em rápido encontro ocasional na Sete de Setembro, falou-me de preocupações espirituais. Parece que sentia falta da segurança da fé em que fora criado, o catolicismo ortodoxo de sua santa de devoção, a mãe, dona Matilde, mulher que criara e gerara um sólido ramo dos Anciutti Pessoa.

DEVORADOR DE LIVROS

Nêgo é um devorador de livros na acepção da palavra. As boas línguas diziam que o cartunista Henfil havia se inspirado no jornalista para criar o Bode Orelana. Mas Nêgo é mais do que jornalista. Nos últimos tempos dedicava-se a publicar livros. No futebol, tinha Adolpho Milman, o Russo, como guru. Era ele o Neném prancha daqui.

Há dois anos lançou “O Livro Vermelho” com impagáveis verbetes. E continua. Um dia, ele jura, ainda vai cantar na freguesia divina.

Prepare-se Deus. Vai dar rebu.

PREOCUPAÇÃO

No domingo, amigos do Nêgo Pessoa foram avisados que estava hospitalizado. Foi pego pelo pulmão. Bandeira vermelha. Atentos, pois.

Vista de Irati, Aristóteles e Keynes
Vista de Irati, Aristóteles e Keynes
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