Assessoria – O Instituto Paranaense de Cegos realiza nos dias 29 e 30 de maio, a partir das 10h, a gravação do curta-metragem “Copos Vazios” produzido integralmente por pessoas cegas ou com baixa visão. Com duração de até 30 minutos, a obra reúne roteiro, produção, elenco e parte da equipe técnica formados exclusivamente por participantes com deficiência visual, reforçando o protagonismo e a representatividade no audiovisual acessível.
Coordenado pela professora do Programa de Arte do IPC, Mariane Laurentino, o curta conta a história do encontro inesperado entre Pedro, um mecânico que enfrenta uma traição, e Tiago, um motorista que perde o controle do veículo e invade a oficina onde Pedro trabalha. A partir do acidente, os dois personagens constroem uma relação marcada por amizade, recomeços e superação.
Segundo Ana Paula Carvalho, diretora geral do projeto e pessoa com deficiência visual, a ideia do curta nasceu após uma experiência realizada no ano passado com um teatro sensorial desenvolvido pelos alunos do Programa de Artes do Instituto. “No ano passado a gente fez um teatro sensorial na Praça Oswaldo Cruz e no MON, usando os sentidos das pessoas para contar a história. Este ano resolvemos passar essa experiência para as telas”, explica.
Ela conta que os próprios alunos foram divididos em equipes e assumiram diferentes funções na produção audiovisual. “Cada aluno ficou responsável por uma atividade. Temos roteiro, direção de produção, assistentes, figurino, elenco e direção. Cada um colocou a mão na massa e assumiu sua tarefa”, afirma. Ao todo, 36 pessoas participam do projeto, distribuídas entre direção, produção, equipe técnica, elenco e figuração.
Um dos atores do curta é Marcelo D’Ávila, pessoa com baixa visão que interpreta o motorista Tiago. Ele, que também colaborou na articulação de espaços para as gravações, destaca que, apesar de já ter atuado durante muitos anos no teatro da igreja antes de perder a visão, esta é a primeira experiência dele em um curta-metragem. “Cada dia de gravação é uma experiência nova”, afirma.
Marcelo acredita que a produção também ajuda a combater estigmas e preconceitos relacionados à deficiência visual. “As pessoas às vezes acham que quem é cego não consegue fazer nada. E esse curta vai mostrar justamente o contrário: que pessoas cegas e com baixa visão também têm capacidade de atuar, produzir e criar”, ressalta.
Ele conta ainda que a experiência possui um significado pessoal profundo. “É uma oportunidade de mostrar para as pessoas que a inclusão é possível e necessária. Muitas vezes a sociedade desmerece a pessoa com deficiência, mas nós conseguimos fazer as coisas também. Talvez de outra forma, em outro ritmo, mas conseguimos”, diz.
Dramaturgia inclusiva
Além de contar com elenco e produção formados por pessoas cegas e com baixa visão, o curta “Copos Vazios” também aposta na dramaturgia inclusiva como recurso de acessibilidade. Segundo Mariane Laurentino, professora do Programa de Artes do Centro de Atendimento Educacional Especializado – CAEE Professor Osny Macedo Saldanha, mantido pelo IPC, a proposta foi desenvolver uma obra acessível desde a concepção do roteiro.
“Nós escolhemos transformar o nosso curta em um produto acessível desde o início. Então, desde o começo do texto, já pensamos a dramaturgia inclusiva junto da narrativa”, explica. Nesse formato, elementos tradicionalmente apresentados apenas de maneira visual passam a ser incorporados organicamente ao texto e à narrativa do filme.
Ela explica ainda que a dramaturgia inclusiva vai além da descrição falada e também busca estimular outros sentidos do público. “A gente trabalha não apenas com aquilo que é visual, mas também com elementos auditivos e olfativos que despertam memórias e experiências pessoais dos espectadores”, afirma.
O projeto também contará com consultoria especializada em acessibilidade conduzida por Manoel Negraes, profissional com baixa visão e ampla experiência em consultoria para projetos artísticos e culturais acessíveis. Segundo Mariane, a proposta é garantir que o recurso realmente dialogue com os públicos cegos e com baixa visão, sem deixar de ser interessante para todos os espectadores.
Gravação de curta-metragem acessível do IPC
Datas: 29 e 30 de maio
Horário: a partir das 10h
Local: Bairro Xaxim – Curitiba (PR)
Realização: Instituto Paranaense de Cegos
