Por Eloi Zanetti (contato: eloizanetti@gmail.com) – Acabo de ler a lenda indígena que relata como foi criada a Serra da Mantiqueira; pareceu-me que tem dedo europeu nessa história: a personagem é tratada como princesa, ora, não existiam princesas nem essa função, filha de rei, entre os nossos índios. Os pretendentes à jovem princesa são chamados de “bravos guerreiros” – por que chamar sempre os nossos índios de guerreiros?
Ao escutar ou ler uma história, lenda ou fábula é melhor ficar com um pé na frente e outro atrás, pois com certeza a narrativa já passou por dezenas de modificações ao longo do tempo ou já nasceu para ressaltar algo do interesse de quem a está contando. Tiradentes foi ressuscitado no início do Brasil República, pelo Exército Brasileiro, para que tivéssemos um herói nacional, e era melhor que ele fosse alferes; antes disso ninguém mais se lembrava dele. Da mesma forma, tentam fazer de Zumbi dos Palmares outro herói.
Fala, fala mamulengo, o mundo inteiro precisa te ouvir – Luiz Gonzaga
No Nordeste os padres inventaram os bonecos de madeira e pano – mamulengos – para ensinar catecismo às crianças indígenas e adaptavam os enredos religiosos ao contexto e cultura locais. Os jesuítas no Paraguai chegaram a proibir o consumo da erva mate pelos guaranis porque eles ficavam entusiasmados demais quando a consumiam. Mais tarde, observando que o ritmo do trabalho entre eles declinava, os padres trataram de reabilitar o uso da planta e inventaram um conto onde Jesus, ele mesmo, visita um velho índio e sua filha e, por ter sido bem acolhido, deu a este uma muda de erva mate para que se recuperasse da saúde e ficasse sempre saudável e a filha pudesse casar e sair de casa. Da mesma fonte há uma história sobre a criação do mundo “segundo os guaranis” que tem todos os elementos do Genesis. Em quem acreditar?
África – o grande nascedouro de histórias
Da África, berço de quase todas as histórias, os missionários europeus aprenderam centenas delas e ao levar para a Europa coloraram finais felizes (não existem finais felizes nas lendas e fábulas africanas, elas param de repente e o ouvinte é quem dá o final, se quiser). Tiraram também o ritmo musical da contação que era usado para ajudar as crianças a memorizar melhor os fatos narrados. A moral conservadora da época apagava toda a malicia e erotismo que os africanos colocavam em suas narrativas. Antoine Galland (1704) retirou toda a sexualidade das Mil e Uma Noites quando a traduziu. Mais tarde o arabista inglês, Sir Richard Burton, fez outra tradução, mas deixando um pouco das sacanagens, sua mulher, católica fervorosa, era quem fazia as revisões. Só agora, há poucos anos, é que os brasileiros podem ler as narrativas de Sharazad traduzidas diretas do árabe para o português pelo professor Mamede Mustafa Jarouche com tudo incluso. Fui encontrar no livro Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire uma antiga história de origem africana que minha mãe nos contava.
As muitas versões da Branca de Neve
As histórias são adaptadas no correr dos séculos ao gosto e a conveniência dos diferentes povos e culturas, por exemplo, a singela Branca de Neve, um trágico caso de ciúme, já teve em épocas passadas, como algoz, a própria mãe. Foi Walt Disney, outro moralista, quem introduziu nos tempos modernos a figura da madrasta. As variadas versões da Branca de Neve têm seu início em um antigo conto grego que relata a visita de Demeter, deusa da agricultura, senhora dos cereais, criadora do trigo, à sua filha Perséfone, raptada pelo Deus Hades. Quando Demeter se ausenta da Terra para visitar a filha vem o gelo e o frio – outono e inverno -, quando ela volta, chegam a primavera e o verão. Branca de Neve liberta seu povo da rainha má e devolve os dias quentes, ensolarados e prósperos ao seu povo.
Narrativas sobre o tema da ressureição – é preciso morrer o velho para que o novo possa nascer – existem em diferentes povos e culturas, assim como o homem feito de barro e o dilúvio. A famosa cena da Madona com o Menino é uma cópia da cena egípcia Isis amamentando seu filho Hórus.
Enfim, até o nosso popular Pedro Malasartes é uma figura recorrente em vários países de origem ibérica. Seja como for, precisamos tanto de histórias quanto de pão, dizia Walter Benjamim, filosofo alemão. Não importa se elas passaram por dezenas de versões ou estão a serviço de alguma causa, o importante é que não nos faltem assuntos para contar.
Você gosta de contação de histórias, então vá a Casa do Contador de Histórias – rua Trajano Reis, 325, em Curitiba.

Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
