Por Lucas Jensen – É uma sexta-feira após o expediente quando eu decido fazer uma incursão ao supermercado. Onde moro não existem tantas opções, então opto por ir à mais cômoda. Esse supermercado é grande, tem uma academia, restaurantes, lavanderia, farmácia e máquina de bichinho, quase tudo o que a vida adulta precisa.
Ao parar no estacionamento já me deparo com a primeira grande escolha da noite: esperar uma vaga no andar descoberto do pavimento do mercado ou descer até o subsolo, coberto, mas nada prático. Felizmente, um golzinho quadrado decide por mim e, antes de um BYD que vinha na contramão, eu faço “zupt” pra dentro da vaga. Pelo menos não tenho que subir escadas. Super conveniente.
Saio do carro esperando que os colegas motoristas deem a vez a este pedestre temporário. Atravesso o estacionamento descoberto questionando o exagero que é uma picape gigantesca que sempre para numa vaga de idosos bem na frente da porta.
Costumo lamentar e reclamar do meu próprio esquecimento quanto a deixar uma lista de compras pronta. Então demoro alguns segundos para decidir entre um carrinho e uma cestinha. Sexta-feira não é um bom dia para escolher o carrinho. Mesmo assim, escolho. Tudo transcorre normalmente, inclusive as curvas erradas no corredor do café, que mudou de lugar recentemente. A rodinha dianteira direita tremelica loucamente guiando o caminho para todos os lugares menos para frente. Normal, mas inconveniente.
Passo pelo caixa – que sempre é o mais lento – logo atrás de uma senhora de cabelos brancos que esqueceu a senha do cartão e de um casal com o que pareciam 145 crianças correndo de um lado para outro. Ao fim, peguei muito mais coisa do que pretendia, paguei muito mais do que deveria e perdi muito mais tempo do que gostaria. Saindo do mercado, desço a rampa até o subsolo só para lembrar que eu não parei lá embaixo. No fim das contas não adiantou nada aquela vaga conveniente no térreo, inconvenientemente apertada entre dois SUVs pequenos.
Depois que reencontrei meu carro e guardei as compras no porta-malas compacto e sem iluminação, chegou o momento de devolver o carrinho até o local certo. Como sempre, o primeiro pensamento é: “não vou levar hoje”. Mas acabo sempre devolvendo. Em parte, porque a minha consciência reage à minha preguiça. Em parte, porque simplesmente “é o certo a se fazer”.
Não me lembro exatamente desde quando costumo devolver meu auxiliar de compras ao seu lugar de origem, mas é algo que nunca me incomodou realmente. Não é um grande trabalho andar até o ponto de devolução então não vejo motivos para não o fazer.
Acho que, de certa forma, é lógico e me incomoda quando vejo um indivíduo aparentemente capaz jogar o carrinho e usar a desculpa que recolher os vestígios das nossas compras é o trabalho de algumas pessoas. Para alguns pensadores como Rousseau e Kant, eu devolvo porque quero que os outros também devolvam e assim mantemos a ordem da sociedade, pelo menos nesse microcosmos.

Isso me fez lembrar que, um tempo atrás, rolou na internet o tal do “Dilema do Carrinho“. A premissa era simples: devolver o carrinho de supermercado após o uso seria o ápice da moralidade humana. A justificativa também era de fácil compreensão, pois não é ilegal deixá-lo no meio da vaga ou em um local aleatório do estacionamento, não há recompensa por devolvê-lo e não há punição por abandoná-lo. Podemos dizer que é um ato “correto”, mas que não é absolutamente necessário para o funcionamento da sociedade. Ou seja, é mais um teste cujos resultados podem ser extrapolados para âmbitos maiores e mais complexos. Aqui, a incivilidade supostamente seria o prenúncio do caos no ecossistema do mercado.
Lembro de achar interessante e reafirmar meu senso moral e cívico. Repetia à exaustão o dilema, sua resolução e problemática. Mas, até que ponto é realmente efetivo e contribui com alguma coisa a não ser o ego cidadão? Qual é o papel do ato simbólico de devolver o carrinho?
Em “O Senhor das Moscas”, de William Golding, o símbolo da civilidade é a Concha. Numa situação limite, a Concha é o centro da sociedade. Enquanto todos respeitam a concha, há democracia. Quando ela se quebra, a barbárie assume. E, spoiler, quem perde são os mais fracos e desacostumados à violência e selvageria.
Então, qual é a mensagem aqui? Em nossa sociedade de espetáculo (Guy Debord), a ação de devolver o carrinho é a imagem de cidadania perfeita, de conveniência. Em uma sociedade de aparências (Byung-Chul Han), o carrinho abandonado é a imperfeição e a inconveniência que o sistema quer esconder.
Se tomarmos o carrinho como facilitador do consumo, a forma de utilizar pode significar coisas completamente diferentes. Denota conformidade ou subversão. No documentário “Carts of Darkness”, do canadense Murray Seltzer, por exemplo, vemos homens em situação de rua que usam carrinhos de compras para descer ladeiras em altas velocidades. Há toda uma técnica envolvida, são “veículos” específicos escolhidos e os sapatos utilizados como freios improvisados.
Por trás do esporte radical, entretanto, vemos como essas pessoas lutam contra o alcoolismo e o perigo das ruas, aborda temas relacionados à saúde mental e à rotina exaustiva da economia de reciclagem. Há uma tensão constante dos moradores dos bairros nobres, polícia e supermercados com os “skatistas de carrinho”. O filme captura essa marginalidade. Eles ocupam espaços que não deveriam ocupar. O carrinho proporciona a única sensação de controle e empolgação em suas vidas.
Michel de Certeau, em “A Invenção do Cotidiano”, analisa como as pessoas comuns subvertem os sistemas impostos. Ele propõe que o consumidor não é passivo, mas que reinterpreta as regras de acordo com as suas necessidades. Para isso, o autor cria uma distinção fundamental entre estratégia e tática. Ele diz que é quem detém o poder (supermercado) que cria o veículo (carrinho) de usufruto e suas regras, neste caso do espaço e serviço. Isso é a estratégia. O alvo é dominar o outro: clientes, cidadãos e subordinados.
Já a tática é o procedimento de quem não tem um lugar próprio. Ela pertence àqueles que precisam se mover dentro do território ocupado pelas estratégias de poder. Para as pessoas em situação de rua, então, a tática é a resistência que desvia o objeto. O carrinho vira casa, transporte e até esporte radical. E isso é inconveniente. Já percebeu o padrão aqui, né?

Conseguimos sentir esse incômodo em “Capitães da areia”, de Jorge Amado. O bando de garotos sofre perseguição da polícia e dos cidadãos, e são a personificação da tática de Certeau. Enquanto Salvador é organizada por estratégias, os meninos sobrevivem driblando as normas, a lei e transformando o trapiche de não-lugar para lugar próprio. Cada um dos capitães utiliza de uma tática distinta para navegar naquele mundo, seja com livros (Professor) ou com a exploração da caridade alheia (Sem-Pernas).
Jorge Amado foi muito feliz, literária e socialmente, ao colocar crianças e adolescentes nessa posição, por vários motivos. O primeiro que me vem à cabeça é que muitas infâncias são regidas por ordens parentais voltadas a “não dar vexame” e se conformar. Isso pode ser desde “ser um bom menino” até reproduzir padrões de pensamento, família, gênero, sexualidade etc. A segunda é que, quando entramos na adolescência isso vira um paradoxo. Queremos mais do que nunca pertencer, mas ao mesmo tempo queremos nos destacar, rebelar-nos contra “o sistema”. Normalmente quando não sabemos nem o que seria isso.
O jovem acha que sabe de tudo, mas não se importa com nada. Quer romper com o que veio antes, mas claramente não sabe o que fazer depois disso. Quer voz, mas normalmente não tem muita coisa a dizer. Essa energia visceral tem a sua utilidade, mas talvez não nessa idade. Não nessa direção.
Axel Honneth diz na sua Teoria do Reconhecimento que buscar visibilidade não é vaidade, mas uma necessidade psíquica. Tanto o jovem rebelde quanto o skatista de carrinho estão gritando “estou aqui”, cada um com a sua voz, forçando a sociedade a olhá-lo, mesmo que com olhos de desaprovação. Inclusive, essa desaprovação muitas vezes é buscada como indicativo de algo “correto”. Porque, se vai contra “o sistema” deve ser bom, certo?
Não quero transformar isso daqui numa grande teoria da conspiração, numa ode a nada, nem numa faísca de revolução. Só trazer uma reflexão. Talvez algumas pessoas estejam tão preocupadas com a devolução do carrinho que não percebem que essa manutenção da civilidade só interessa a quem está inserido na sociedade. Para quem vive à margem, o carrinho é só mais um instrumento de opressão e ausência. Portanto, não há utilidade em devolvê-lo. E talvez algumas pessoas estejam tão preocupadas em destruir o carrinho que não pensam em como vão carregar as compras. Ou em usar o carrinho de cabeça para baixo jurando que esse é o jeito certo.
O ponto crucial é que as pessoas não precisam de supermercados para viver. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim dos supermercados?
Para terminar com um clichê conveniente da internet atual, isso não é sobre carrinhos.
Para fins legais de legalidade, foi o ChatGPT que escreveu. Para fins legais de entretenimento, fui eu mesmo.

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.
