CMC – Às 15 horas de um domingo, 2 de maio de 1886, Curitiba ficou em festa para a inauguração de seu primeiro parque, o Passeio Público. O jornal “Gazeta Paranaense” antecipou, na edição do dia anterior, que as obras do “formoso logradouro” seriam entregues pelo presidente da Província do Paraná, Alfredo d’Escragnolle Taunay, juntamente com a Câmara Municipal de Curitiba (CMC) e com outras autoridades. O “melhoramento” era visto não só como forma de embelezar e proporcionar um espaço de lazer à cidade, mas também como resposta a ameaças à “saúde e higiene gerais”, já que foi construído sobre uma área pantanosa, que costumava ser alagada pelo rio Belém.
O país já adotava, à época, o modelo português para a adoção de áreas verdes nas cidades. Em 1764, em Lisboa, o Marquês de Pombal fez a primeira de diversas doações de espaços arborizados à população, batizado como Passeio Público. Por aqui, o Passeio Público do Rio de Janeiro, localizado na Lapa, próximo à Cinelândia, foi construído entre 1779 e 1783 e é considerado o primeiro parque não só do país, mas das Américas.
Em Curitiba, o primeiro debate sobre a construção de um parque público ocorreu em março de 1857. Na ocasião, os deputados aprovaram e o vice-presidente da Província do Paraná, José Antônio Vaz de Carvalhais, sancionou a lei nº 9. A norma determinou a criação de um jardim botânico. Apesar de prever os valores para a implementação e a manutenção do espaço, a ausência de um local fez com que a ideia não saísse do papel.
De banhado insalubre ao primeiro parque de Curitiba

Segundo a “Gazeta Paranaense”, a área inicial do Passeio Público de Curitiba era de 48 mil m² (depois ampliada para 69 mil m²). “As divisas deste terreno são, a norte, o boulevard 2 de Julho [atual avenida João Gualberto]; a leste, os terrenos de D. Laura [Borges, partes deles desapropriados, mais tarde, para aumentar o Passeio Público] e o tanque Bittencourt [também desapropriado, futuramente, e cedido para a instalação do Círculo Militar]; a sul, a rua do Serrito [hoje a rua Presidente Carlos Cavalcante]; e, a oeste, a rua Fontana [atualmente a rua Presidente Faria]”, informou o jornal.
No entanto, apenas um oitavo da área original era de terreno firme, “sendo o restante um banhado impraticável e insalubre”, atravessado por trecho do rio Belém. Já nos primeiros provimentos municipais, em 1721, o ouvidor Raphael Pires Pardinho determinou que as águas do rio Ivo eram para beber, pois atravessava a região central de Curitiba, onde havia a maior concentração de moradores. Já o rio Belém, situado em local mais afastado, receberia “as águas servidas”, isto é, o esgoto da cidade.
Entre outras questões referentes à salubridade urbana, as áreas alagadiças e os rios permeavam debates na Câmara de Curitiba e na imprensa muito antes da década de 1880. Antigamente, a crença era que a água parada, assim como os corpos em putrefação, emanava miasmas, espécie de névoa capaz de espalhar doenças à população.
Inauguração reúne multidão e marca novo espaço público

“A concorrência foi enorme, e de tanta gente que ali se reuniu, representando todas as opiniões políticas, ninguém houve, sem dúvida, que intimamente não elogiasse o administrador da Província pelo benefício que fez a esta capital”, celebrou a “Gazeta Paranaense” sobre a cerimônia de inauguração. A obra foi entregue inacabada, na tarde daquele domingo, 2 de maio de 1886, porque Taunay, o responsável, no âmbito político, por idealizar a construção do Passeio Público, deixaria o cargo no dia seguinte.
“O Sr. Dr. Taunay pronunciou uma breve alocução, entregando o Passeio ao gozo público, elogiando publicamente a Câmara Municipal, o ativíssimo Sr. Francisco Fontana, o comendador Ildefonso Correa [futuro Barão do Serro Azul] e o engenheiro Lazzarini”, afirmou a reportagem. Passados os “vivas” do público, a cerimônia prosseguiu com um tour de bote pelos quase 800 metros de canais navegáveis do rio Belém. “A festa esteve animadíssima e [transcorreu] por uma tarde esplêndida. Por ato de hoje, foi nomeado diretor do Passeio Público o Sr. Francisco Fasce Fontana.”
Mesmo o “Dezenove de Dezembro” interrompeu as críticas à obra e informou que na tarde daquele 2 de maio teria lugar a inauguração do futuro Passeio Público, “que promete ser um belo logradouro”. “Inaugurou-se com grande pompa o local destinado para Passeio Público desta capital, e disso já devem ter ido os telegramas para a Corte. Aplaudimos a ideia, e achamos menos má a escolha do terreno, por ser um brejal que se pretende dessecar, e tornar útil [o que] de imprestável antes era”, opinou, na edição do dia seguinte à festa, o mesmo jornal.
Mas a trégua não durou muito tempo… “Prometemos voltar ao assunto”, reforçou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 6 de maio. Repetindo que “a ideia foi boa, o local bem escolhido”, o jornal repetiu a crítica à despesa da Câmara e da Província com tal obra, diante de “serviços de reconhecida necessidade” e da transparência com o que já havia sido despendido nas obras.
Leia a matéria completa feita pela Câmara Municipal de Curitiba
