quinta-feira, 23 abril, 2026
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Nomes originais de ruas eram regidos por poesia e romantismo

Memória Urbana por Raul Urban – Num tempo em que Curitiba respirava os novos ares da República recém-proclamada, no início do século 20, apesar de capital do Estado do Paraná, era não mais que uma das tantas cidades interioranas, onde, em pleno centro, predominavam as carroças transportando mercadorias para entrega no comércio, pessoas de todas as idades aproveitavam o silêncio urbano para costumeiros passeios que, por vezes, se estendiam por quilômetros, de bairros situados em pontos opostos, mas com passagem na área central.

Ruas pavimentadas ainda são exceção à regra. Quando muito, algumas poucas vias centrais têm paralelepípedos. Nas demais, muita poeira nos dias quentes e muita lama em dias chuvosos.

Cena 1: por volta de 1950

Quando o avô, já octogenário, decide passear com o neto ainda menino de seus cerca de dez anos de idade. Ambos saem de casa, na Rua América, quase na esquina com a Rua do Serrito, sobem a ladeira que leva ao Largo Coronel Enéas (ex-Largo do Terço), descem pela ladeira íngreme da Assembleia (originalmente Rua Jogo da Bola). Um pouco cansados, fazem uma pausa e, por alguns minutos, respiram fundo na esquina com a Rua Carioca de Baixo, por onde seguem até o Largo da Ponte.

Nova parada, enquanto os olhos prestam atenção na água que jorra do chafariz na parte central, para então prosseguirem pela Rua Ratcliff, caminhando sem pressa até a altura da Rua Ivaí, por onde chegam ao destino desejado, o Campo da Cruz. Mesmo exaustos, depois de quase duas horas de caminhada, desfrutam da paisagem bucólica, enquanto sentem no ar a poesia de ada uma das ruas ou largos percorridos – o que remete a um distante passado repleto de História.

Cena 2: abril de 2026

No fim de semana de um outono morno, durante o prolongado feriado de Tiradentes – comemorado na terça-feira (21), mas, na prática, usufruído desde o sábado anterior, quando milhares de curitibanos deixaram a cidade rumo ao interior ou ao litoral do Paraná, o avô octogenário – que vem a ser o menino que na cena anterior tinha cerca de oito a dez anos – decide refazer o mesmo trajeto antes descrito, de novo em companhia do neto, igualmente na casa dos nove anos de idade.

A tradicional família que herdou dos antepassados o imóvel, continua morando na Rua América, atual Rua Trajano Reis, a poucos metros da esquina com a então Rua do Serrito – hoje Rua Carlos Cavalcanti. O trecho, há muito pavimentado, facilita a subida íngreme que leva ao Largo Coronel Enéas – o popular Largo da Ordem, ladeado pelo casario colorido e que convida à descida, sem pressa, pela ladeira da antiga Rua Jogo da Bola, atual Alameda Doutor Muricy. As vias empoeiradas deram lugar a calçadas guarnecidas de petit-pavê, pedras de granito ou paver dependendo da região, conforme determina a lei que define o tipo de calçada no centro e bairros da cidade.

Vencido o declive, breve descanso no cruzamento com a antiga Rua Carioca de Baixo, que, fruto da bajulação dos homens bons (vereadores), logo após a proclamação da República, homenagearam o marechal Deodoro da Fonseca, que deu seu nome à via. No cruzamento da alameda e da Rua Marechal Deodoro, o avô, saudoso dos tempos d’antanho, mostrou ao neto uma Praça Zacarias com seu repuxo e o busto de Zacarias de Góes e Vaconcellos, ilustre baiano que presidiu a Província do Paraná nos tempos imperiais. Uma paisagem muito diferente, agora cercada de edifícios, da dos tempos do Largo da Ponte com seu casario colonial, onde os curitibanos buscavam água na fonte.

Por fim, um último trecho percorrido, a partir da praça, pela Rua Desembargador Westphalen (ex-Rua Ratcliff), com o passeio terminando na Praça Ouvidor Pardinho – o antigo Campo da Cruz, endereço de merecido repouso para a volta para casa.

Praça Ouvidor Pardinho – o antigo Campo da Cruz. Crédito: Tripadvisor

Mudaram os tempos; mudou a cidade, que de provinciana passou a ter ares metropolitanos, e hoje é endereço certo de milhares de turistas do país e do exterior que fazem de Curitiba um dos mais preferidos endereços de visita no Sul do Brasil. Mas o propósito maior, no correr dessas duas cenas, foi mostrar que a poesia, em parte também a lembrança saudosa de outros tempos, foi importante para mostrar o bucolismo em torno dos velhos e poéticos nomes das ruas, chegando mesmo à ingenuidade, mas revelando que esse espírito naif há muito perdeu seu protagonismo.

Na sequência desta série, além de uma lista das tantas ruas que seguidamente tiveram seus nomes trocados – boa parte por interesses diversos, especialmente políticos -, o propósito é levar o leitor ao reencontro com um passado nem tão distante, mas carregado de emoções e repleto de muita História.

*Raul Guilherme Urban é jornalista, escritor, memorialista, pesquisador da memória histórica e ligado à área do transporte multimodal integrado e colaborador do Mural do Paraná.

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