Esta semana, a coluna Mural Político – Nos Corredores do Iguaçu vai ser um pouco diferente. Depois da edição extraordinária – publicada na terça-feira (14) após o anúncio do governador Ratinho Junior que sacudiu o meio político paranaense – hoje “daremos um passo atrás”, resgatando as palavras do nosso mestre, o Professor Aroldo Murá (1940-2023). Com seus 62 anos de jornalismo, nos legou milhares de publicações do seu antigo Blog (preservadas no nosso espaço Memorial) e a coleção de perfis biográficos Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses.
Em 2021, após o hiato de um ano causado pela pandemia da Covid-19, foi lançado a edição 12 de Vozes do Paraná (uma das poucas que esgotou os exemplares, até hoje). Dentre os perfilados – como era a marca do Professor Aroldo, que antevia o futuro a partir de sua arguta observação do presente, e rememoração da memória paranaense – estava o então secretário da Casa Civil, Guto Silva, que se preparava para uma candidatura ao Senado, em 2022. Como se sabe, houve a promessa, mas a indicação para a vaga pelo PSD não veio. Sergio Moro (hoje no PL) acabou levando a vaga da vez, que era de Alvaro Dias (hoje no MDB).
Comparado a ninguém menos que o saudoso Belmiro Valverde Castor (1942-2014), Guto Silva surpreendeu o experiente jornalista durante a entrevista (por videochamada, graças ao isolamento social daquele então). A seguir, alguns trechos do perfil publicado em Vozes do Paraná 12. “Ele, de certa forma, lembra-me um dos mais maduros intelectuais, homens públicos e pensadores do Paraná, Belmiro Castor. Guto e Belmiro, sendo scholars, nunca esconderam a fonte de seus aprendizados – a gente paranaense”.
Guto Silva: Renovação da política muito além do acidental
Trecho do perfil publicado em Vozes do Paraná 12 (2021, Editora Bonijuris).
Guto Silva pode estar fazendo escola quando insiste em explicar que a sua geração, a mesma de outros componentes do governo estadual do Paraná, e do próprio governador Ratinho Junior, forma uma clara “geração pós-Diretas Já“.
Traduzindo: eles são homens e mulheres públicos que vieram ao mundo sob o sopro benfazejo da democracia plena iniciada em 1985. Sem compromisso, no entanto, com o modus operandi dos pais da redemocratização, embora sem deixar de homenageá-los pela tarefa hercúlea que foi retirar o país da ordem autocrática.

O custo foi alto, sangue e lágrimas, reconhecem. E com essa liberdade histórica, Guto e os seus companheiros foram tratando de pavimentar seus próprios caminhos, ocupando seus espaços, isso sem mencionar que, na prática, é uma geração carimbada pelo tecnológico. Por direito de berço, eles nasceram todos com o mouse na mão. A realidade dos algoritmos é alimento essencial, questão de sobrevivência do corpo e do espírito.
Nestes dias em que preparo o perfil de Guto, depois de sua entrevista ter ficado na “geladeira da pandemia” por treze meses, consigo ter uma percepção mais ampla do personagem. Essa “geladeira” (só que menos longa, claro), eu a recomendo a quem se aventura a traçar perfis de vidas. Ideias, olhares, sensibilidades, raciocínios e sentimentos devem passar por uma decantação valiosa. O cozinheiro, por exemplo, garante que uma carne, depois de uma “boa curtida”, ganha novos encantos. Alguns chefs exagerados, chegam a sugerir o uso de uma carne “sentida”, o que significa passada (!).
Seria exagerar se classificasse Guto Silva como um político carismático, daqueles que, sem mais nem menos, arrebatam multidões. Boa parte dos que o conhecem bem apostam, e identificam nele, no entanto, uma “sintonia fina” que o caracteriza, que se pode traduzir, simplesmente, por empatia.
Avis rara da política
Bastam segundos para o interlocutor mesmerizar-se, por vezes, com sua explanação de temas que têm de desenvolver no dia a dia da Casa Civil do Paraná, de que é o secretário. Mais do que o técnico bem formado em centros culturais europeus, como em Salamanca e Braga, Guto enxerga o Paraná, como território privilegiado de seus projetos; e de seu mundo imediato, por óticas que nem sempre os senhores da política adotam. Uma delas, a ótica do mergulhar na História do Paraná, para bem compreender essa terra que é a tradução do melting pot tão citado por sociólogos e demógrafos.
Arrisco, sem compromissos de agradar ou desagradar outros homens públicos, que estamos diante de avis rara da vida paranaense. Isso porque o ritmo lógico de suas explanações, denunciador do “magister” que existe nele, mostra um homem público diferenciado. Especialmente porque sabe se autoanalisar e explicitar os pontos a favor de suas pretensões. Sabe pensar. Alguém que pensa bem, e pode ser tomado como um maître à penser.

Scholar como Belmiro
Ele, de certa forma, lembra-me um dos mais maduros intelectuais, homens públicos e pensadores do Paraná, Belmiro Castor. Guto e Belmiro, sendo scholars, nunca
esconderam a fonte de seus aprendizados – a gente paranaense.
Quando fala dos homens e mulheres do Paraná, Guto Silva coloca-se numa posição corretamente privilegiada: nasceu no Norte do Paraná paulista; foi criado em Pato Branco “domado” pelos gaúchos; e fincou residência em Curitiba, cidade marcada pela herança tropeira e dos europeus não ibéricos. Isso sem contar com o DNA de oriundi, de italianos do Vêneto e Calábria.
Salve Guto Silva, raridade num mundo pós pandemia, tempo de revalorização de valores ocultos na sociedade atual. Alguém duvida que ele tem um portfólio que o habilita a novos grandes vôos na vida pública?
“Corta pescoço”
De Guto, só não se leve a sério a tradução de um dos seus nomes familiares ancestrais: Tagliacollo, “corta pescoço”. A tradução do nome pode ter tido até alguma “validade” na Itália de seus ancestrais calabreses e do Vêneto, que no final do século 19 chegaram em São Paulo para o trabalho rural e depois colonizaram o Norte do Paraná. Foram pioneiros, parte da bem-vinda imigração que ajudou a remodelar a vida pública, a academia, a economia.

Guto também é empresário na área de comércio exterior e consultor internacional de empresas, consultor internacional do Sebrae/PR e já esteve em cerca de 50 países realizando negócios internacionais. Durante quatro anos, estudando e trabalhando fora do país, passou por Londres (Inglaterra), Braga (Portugal) e Salamanca (Espanha). Em 2011, foi coordenador do CDTIS (Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Sudoeste) bem como conselheiro do Banco de Desenvolvimento do Paraná (Badep) entre 2012 e 2014 (o Badep foi extinto em 2018).
Nova geração
Tanto o secretário chefe da Casa Civil do Paraná quanto o governador vêm de uma nova geração que passa a ocupar os principais cargos do Executivo e Legislativo no Estado. Segundo Guto Silva, ele e Ratinho Junior são “frutos de um momento político específico”, geração posterior aos pioneiros das Diretas Já na redemocratização.
Entre seus ideais e práticas na gestão, podem ser destacados a social democracia (lema do PSD), a livre iniciativa, a interferência reduzida do Estado na economia (na medida do possível), os investimentos em infraestrutura e as ações sociais, para tentar “reduzir a desigualdade dos cidadãos de todos os 399 municípios”.
