
Ele foi o Barão da Imprensa. Dono de O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná, jornais que, nos anos dourados do jornalismo, eram impressos em grandes tiragens e distribuídos em uma operação gigante que, só na região de Curitiba, exigia 20 caminhões.
Paulo Pimentel, 89, ex-governador, comprara os jornais porque a oportunidade lhe aparecera. Era 1962. Ney Braga o havia nomeado secretário da Agricultura do estado, mesmo sabendo que ele não entendia nada do assunto. Era um advogado formado na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, que ora administrava uma usina de açúcar em Porecatu, no interior do Paraná.
CONFESSOU LIMITAÇÕES
Empossado, ele tratou de confessar sua ignorância aos técnicos e assessores, pedindo que o ajudassem. Foi o bastante para criar programas que alavancariam sua candidatura ao governo na campanha de 1965. Ele introduziu o gado Nelore no Paraná e criou o Parque de Exposições Castello Branco, que foi visitado por sete presidentes da República. Paradoxalmente, ele não sabia o que estava fazendo, mas sabia.
DONO DE EMISSORAS DE TV
Os jornais ajudaram a construir e consolidar a reputação empreendedora de Pimentel e o tornaram um homem de imprensa, apegado a ideais e campanhas de desenvolvimento do estado. Pimentel foi dono também de emissoras de TV, a Iguaçu e a Tibagi. E de rádio, a Guairacá, entre elas. Mas sua paixão eram os jornais. Era ali o seu QG, onde controlava com mão de ferro e, sabe-se agora, com concessões cômicas e jeitão boa praça, o rumo dos jornais.
COMO O “ESTADÃO”
O Estado do Paraná era sua grande paixão. O sonho era fazer dele um diário da estatura de seu coirmão, O Estado de S. Paulo. Quanto à tribuna, tornou-se o jornal mais vendido nas bancas de Curitiba, focado nas notícias policiais e esportivas. Histórias rocambolescas como a da loira do táxi embalavam o imaginário do leitor – a maioria, homens – e havia ainda o desfile de mulheres nuas na seção “Triboladas” de Dartagnan, pseudônimo que escondeu a identidade de muitos jornalistas que passaram pela coluna.
CRIADOR DAS UNIVERSIDADES ESTADUAIS (PAGAS)
Eleito governador em 1965, foi dele o projeto para a criação da Academia Militar do Guatupê e das três universidades estaduais de Londrina, Maringá e Ponta Grossa. Com um detalhe: elas não eram de graça. Cobravam-se mensalidade daqueles que podiam pagar e isentava-se os de baixa renda. Era justo, era correto, era producente e gerava recursos para que a instituição ganhasse autonomia financeira. O conceito de que a universidade pública deve ser financiada pelo estado – um conceito que até políticos com alguma razoabilidade defendem – acabou por enterrar a ideia de Pimentel. Deu no que deu.
PERDENDO A GLOBO
O ex-governador nunca foi um homem de grandes voos. Foi secretário da Agricultura do governo Ney Braga por acaso e, depois governador contra a vontade de Ney.
No auge, era dono de emissoras de TV e de repetidoras em todo o Paraná. Transmitia o sinal da Globo, a rede que cresceria sob o regime militar de forma espantosa. Em 1976, os desafetos de Pimentel se encarregariam de fazer com que ele perdesse o sinal da Globo e ficasse a ver navios. Entre eles, estavam Ney Braga, Jaime Canet Jr. e Ernesto Geisel, então presidente da República no governo militar. O tinham como traidor. Traidor que ele nunca fora.
SINCRETISMO COM MACUMBA
Pimentel não se abalou. Depois de um período em que, diz, transmitiu até “trabalho de Macumba”, assinou contrato com o SBT, a emissora de TV concedida a Silvio Santos.
Desde que começou a trabalhar, primeiro como advogado da Votorantim, em São Paulo, depois nas empresas dos Lunardelli, das quais a esposa, Yvone, era herdeira, Pimentel nunca fez maus negócios. Quando negociou, com o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, as emissoras de TV do grupo, na primeira década do século XXI, tratou de fazê-lo em bases sólidas.
MELHOR IMPRESSORA
Vendeu a TV, mas não os prédios. No caso dos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná tratou de negociá-los com a Gazeta do Povo, seu único concorrente, juntamente com a off-set, talvez a de melhor impressão da cidade. Quatro anos depois, no entanto, azar. A máquina quebraria de modo irreparável e seria vendida (ou quase dada) a um jornal de tiragem pequena em Almirante Tamandaré.
LEITOR DE JORNAIS NO iPAD
A essa altura, há que se imaginar que Paulo Pimentel, aos 88 anos, lamenta a morte do jornal impresso em Curitiba. Pois não lamente. Diz que é um investimento “economicamente inviável” e que a Gazeta do Povo fez muito bem em parar as máquinas e investir no digital. Ele mesmo, às cinco ou seis da manhã, está abrindo o seu iPad e conferindo as notícias nas versões digitais da Folha, do Estadão, da Gazeta e, aos sábados, bem de manhã, da revista “Veja”. Como sempre, Paulo Pimentel continua à frente de seu tempo. Com agilidade e lucidez ímpares. É de causar inveja.
VAI PARA O LIVRO
Os detalhes desse depoimento de Pimentel estarão no livro “Encontros do Araguaia – paranaenses que construíram o século 20”, a ser editado em 2018. Filmado, o precioso depoimento de Paulo Pimentel será futuramente apresentado no mesmo projeto, no Youtube.



