Assessoria – A corrupção, o fanatismo e a falsa moral ganham corpo e voz no palco com “O Preso”. A montagem, escrita e dirigida por Jul Leardini, fica em cartaz no Teatro José Maria Santos, em Curitiba, até o próximo domingo (22). No elenco Ulisses Iarochinski, Diego Avelleda e Roberto Guedes, em atuações intensas e simbólicas.
Mais do que uma crítica, “O Preso” é um espelho incômodo da sociedade brasileira contemporânea. A peça reflete as contradições de um país onde discursos sobre moral, família, religião e patriotismo convivem, e frequentemente se misturam, com corrupção, cobiça e violência.
O retrato do “homem de bem”
O protagonista, Cabrálio Balaústra, é a síntese do político brasileiro típico das últimas décadas. Patriota, religioso, defensor da família, da propriedade e da liberdade – mas igualmente ganancioso, corrupto e violento. Preso por corrupção, Cabrálio mergulha em um processo de degradação moral e humana: a família se desagrega, os amigos desaparecem, e os antigos parceiros passam a explorá-lo, exigindo propinas e favores mesmo atrás das grades.
No entanto, o poder não o abandona. Dentro da prisão, Cabrálio mantém privilégios e regalias, sustentadas pela corrupção que move o próprio sistema carcerário.
“O personagem é resultado de um caldeirão que mistura política, religião, moralidade e crime. Ele não é uma caricatura isolada, mas um reflexo de muitos nomes, rostos e discursos que marcaram o país nas últimas décadas”, explica o diretor Jul Leardini.
O dramaturgo destaca que o texto não busca retratar uma figura específica, mas sim uma estrutura de poder entranhada na cultura política brasileira.
“Cabrálio representa uma engrenagem que não para. Ele é o produto e o produtor de uma lógica corrompida que já faz parte da nossa normalidade. O público vai se reconhecer – não necessariamente no político, mas no sistema que o mantém”, afirma Leardini.
Teatro como espelho e denúncia

Com cenografia e sonoplastia também assinadas por Leardini, o espetáculo aposta na fusão entre teatro, imagem e som para criar uma experiência sensorial intensa. A encenação é marcada por um ritmo cinematográfico, em que os espaços se transformam – cela, palanque, templo e tribunal se confundem, revelando a sobreposição entre fé, poder e impunidade.
A iluminação de Beto Bruel – com releitura de Madu Teixeira – conduz o olhar do espectador pelos contrastes da narrativa – entre o brilho do poder e a penumbra da culpa – enquanto as músicas compostas por Leardini e os arranjos de Adriano Sátiro reforçam a atmosfera crítica e irônica da trama.
“O teatro tem a função de provocar. De incomodar. Não queremos que o público saia confortável. Queremos que saia pensando, rindo nervosamente, reconhecendo no palco o absurdo que virou cotidiano”, diz o diretor.
Com humor corrosivo, sarcasmo e poesia, “O Preso” questiona a cumplicidade social que sustenta a corrupção, apontando o dedo não apenas para o político, mas para uma cultura de idolatria e fanatismo.
“O preso não é só o político, somos nós. Somos os cúmplices, os cegos convenientes, os que elegem, os que perdoam, os que esquecem. A prisão, na peça, é também simbólica: a prisão das ideias, das crenças e das mentiras que escolhemos acreditar”, completa Leardini.
Um espetáculo necessário
Produzida pela ÊXEDRA Pesquisa e Experimentação Teatral, a montagem reafirma o compromisso do grupo com um teatro de reflexão política, estética apurada e engajamento social.
“O Preso” é, antes de tudo, uma convocação à consciência crítica. “Vivemos tempos em que se confundem fé e ideologia, moral e poder, religião e mercado. Essa peça não traz respostas, mas tenta abrir fissuras. É um convite para que o público olhe de frente o que preferimos ignorar”, resume o diretor.
Serviço: O Preso – Peça Teatral
- Local: Teatro José Maria Santos – Rua 13 de Maio, 655, Centro, Curitiba, Paraná
- Datas: 11 a 22 de fevereiro de 2026 (quarta a domingo)
- Horário: 20h
- Ingressos
- Preços: R$ 36,00 (inteira, mais taxas) – R$ 18,00 (inteira mais taxas) – R$ 22,00 (com bônus mais taxas)
- Classificação: 16 anos
- Email: juleardini@gmail.com – Fone: 41 99760-2104
