Vem das casernas o sopro democrático que deveria estar fazendo vento nas manifestações de rua. O comandante do Exército brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, negou durante audiência pública a possibilidade de uma intervenção das Forças Armadas para resolver a crise política no Brasil.
O assunto não estava na pauta, mas sempre vem à baila por conta da presença quase certa, na plateia, de um tresloucado saudoso da ditadura militar, e ora simpatizante da candidatura de Jair Bolsonaro, e outro igualmente abilolado clamando pelas diretas já em um país em que diretas há.
ABSOLUTAMENTE ANACRÔNICO
Villas Bôas, um militar de carreira, não quer nem ouvir falar em ditadura. Nem mesmo em intervenção transitória. Dos anos que viveu em meio ao regime de exceção guarda amargas lembranças. E se espanta: “É muito triste que a população veja como alternativa uma intervenção militar. As pessoas até não percebem que isso é absolutamente anacrônico”.
Mas não há por que não considerar as reações extremas naturais e, por si só, democráticas. O general Villas Bôas admite que há um cansaço em relação ao politicamente correto – essa ditadura virtual que tratou de por a polícia do pensamento no encalço daqueles que não rezam sob a novilíngua. (Se você não leu Orwell, corra!).
O perigo é a radicalização e a ação dos oportunistas. Donald Trump é um exemplo nos EUA, Marine Le Pen na França, Jair Bolsonaro aqui, mas o general nem quer ouvir falar nele.
ESTADO DE DEFESA
Em entrevista à revista “Veja”, em abril deste ano – portanto, antes do grampo da JBS que abalou o governo Michel Temer – o general revelou um plano para decretar o estado de defesa no Brasil durante o governo Dilma Rousseff. Caso a medida fosse implantada, o exército seria colocado nas ruas e as manifestações seriam proibidas. Por sorte, o plano não foi além do gabinete do ministro da Defesa, Aldo Rebelo (ora ora, do PCdoB), mas esteve em pauta.
ARMA APONTADA PARA BRASILEIROS?
Militar formado no conceito de que a função do Exército é proteger o país, ele é contrário ao uso das Forças Armadas na guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro. Diz que não é papel do soldado e que ele não é treinado para isso. “Quando estávamos na favela da Maré, no Rio, via o nosso pessoal de capacete e colete, armado na rua ao lado de crianças e senhoras. É terrível essa disfunção. Estamos ali com arma apontada para brasileiros? É absolutamente inadequado”. Ainda assim, o Exército foi mobilizado para proteger as ruas mais de 115 vezes nos últimos 30 anos, a maioria na última década.
CUBA E VENEZUELA
O que dizer dos que acalentam essa possibilidade ou imaginam que antecipar as eleições é a panaceia para todos os nossos males? Ora, os exemplos são palpáveis. Há duas ditaduras simbólicas na América Latina. Uma enraizada em Cuba, cujos efeitos deletérios são conhecidos. Outra, disfarçada de democracia direta, comandada por Nicolás Maduro, na Venezuela. Ambas, por coincidência, são de esquerda, mas substitua as camisas vermelhas ou as jaquetas castristas por uniformes verdes-oliva pregados de medalhas. Não haverá diferença. Só o propósito comum de enterrar as liberdades, quaisquer que sejam elas.
ESTÁ BEM DOENTE
À “Veja”, o general Villas Bôas revelou que está enfrentando uma grave problema de saúde. Foi acometido de uma doença degenerativa chamada doença do neurônio motor, que afeta a mobilidade e a respiração. Ainda assim, segue no comando do Exército, só não sabe por quanto tempo. A doença, por exigir tratamento intensivo, vem impedindo-o de fazer aquilo que mais gostava: percorrer as unidades do Exército pelo país e visitar as tropas. “Não sei até onde vai meu dever de continuar lutando e permanecer no exercício do cargo e a partir de que momento passarei a atrapalhar. É algo muito sutil”.
