
Está chegando às livrarias a obra “Tancredo Neves, o Príncipe Civil”, de Plínio Fraga (Nova Fronteira, 648 págs., R$ 75). Tancredo foi uma das figuras fundamentais da segunda metade do século XX. O ex-diretor-geral da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, vê no presidente que nunca foi a mesma estatura política do peemedebista Ulysses Guimarães, o “Senhor Diretas” da era do regime militar. Com a diferença de que ele inspirava mais confiança aos militares. Por isso pôde se apresentar como candidato ao Colégio Eleitoral, em 1984, sem despertar qualquer resistência da caserna.
PRIMEIRO MINISTRO
Tancredo era o ministro de Getúlio Vargas quando este pôs fim à vida no Palácio do Catete com um tiro no coração. Menos de uma década depois, em 1963, o mineiro era alçado à condição de primeiro ministro em um parlamentarismo de dez meses, condição sine qua non para que João Goulart pudesse assumir o governo em substituição ao “breve” Jânio Quadros.
RELACIONAMENTOS AMOROSOS
O livro de Fraga, ex-jornalista da Folha de S. Paulo e de O Globo, é minucioso. Ele relata que Tancredo se considerava “cristão-social-reformista”, uma denominação política que, no entanto, não o impedia de ter relacionamentos extraconjugais fora do alcance do radar de dona Risoleta.
Há até um caso duradouro narrado. Com Antônia Gonçalves de Araújo, a “dona Antônia”, com quem Tancredo se encontrou por longos 14 anos. “Dr. Tancredo era só política. Eu cuidava do resto”, disse Antônia, hoje com 84 anos, em depoimento ao autor. É uma das revelações da biografia.
O DINHEIRO SUMIU
Há outra. Nas sobras de campanha para o colégio eleitoral restaram 10 milhões de dólares (R$ 31,4 milhões), dos quais não se conhece paradeiro. Não é um capítulo que mancha a política brasileira. Apenas confirma tudo o que se pensa dela.
ULYSSES ABRIU MÃO
Em 1985, após se eleger no Colégio Eleitoral, tendo como adversário o interminável Paulo Maluf, Tancredo foi internado em 14 de março, um dia antes da posse. Passaria mais de um mês no hospital até o anúncio de sua morte, no dia 21 de abril. Durante esse período, tratou-se da delicada sucessão de um presidente que sequer recebera a faixa. Um grupo do PMDB, como revela Scalco, era favorável à posse de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara. Mas ele preferiu abrir mão e não impôs resistência a José Sarney, do PDS, o vice na chapa de Tancredo. Era o nome que mais agradava a linha dura das Forças Armadas.
ACERVO RICO
Se há uma nota triste na pesquisa de Fraga a registrar é o fato dos herdeiros de José Góes, dono de um acervo de mais de 6 mil imagens de Tancredo, não terem chegado a um acordo com a editora para publicar parte do material no livro.
Fica o leitor privado desse arquivo iconográfico.
