quarta-feira, 6 maio, 2026
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LAMENTO, MAS EU TINHA RAZÃO: GAZETA IMPRESSA ESTÁ ACABANDO

“Fac-símile” da matéria de abertura em que a coluna anunciou a mudança, em fevereiro.
“Fac-símile” da matéria de abertura em que a coluna anunciou a mudança, em fevereiro.

Em 1º de fevereiro deste ano, há mais de dois meses, portanto, este jornalista publicou coluna/blog chamando a atenção para os sintomas evidentes de que a Gazeta do Povo iria pôr fim à sua edição impressão.

Foi severamente criticado. Houve jornalistas que brigaram entre si, uns apoiando as informações (“o Aroldo é bem informado”), dizia um deles; outros colocando-se frontalmente contra a novidade nada agradável, chegando até a premiar este espaço como sendo “um rosário de especulações”.

De uma hora para outra, parecia um crime de lesa-pátria. Um jornal quase-centenário (está com 99) não poderia jamais deixar seus leitores órfãos da versão em papel. A tradição saudosista falava mais alto que o raciocínio lógico aliado à ascensão tecnológica.

EPIFANIA

Não se tratava de uma epifania, de uma revelação divina, mas de um olhar em torno. As bancas de jornal estavam sumindo da paisagem urbana, os pontos de venda do jornal estavam abarrotados de tudo menos da edição diária da Gazeta, as assinaturas caíam vertiginosamente e as ofertas de renovação eram dirigidas à versão digital.

ASSINATURA DIGITAL

Os sintomas, portanto, eram evidentes. Ainda mais, se contabilizado também o enxugamento da redação e do jornal, com uma série de demissões anunciadas, cadernos encolhidos, sessões extintas. Em meados de fevereiro, o jornal interrompeu a distribuição do impresso para o interior do Paraná. O custo era muito alto para um retorno indigente.

Para evitar a consequente desconfiança do mercado, a Gazeta lançou campanha de assinaturas em que cobrava R$ 59,90 mensais pela edição impressa e R$ 0,99 pela digital. Outra polêmica se instalou porque o jornal havia omitido, ou colocado em segundo plano, informação de que a promoção do digital só era válida para o primeiro mês.

Não entremos nessa seara, repito aqui o que disse lá.

SÓ NO CELULAR

O fato é que os sintomas eram consistentes. O jornal impresso ora apaga-se. Haverá uma edição impressa aos sábados, a partir de 3 de junho, acompanhando as luxuosas e rentáveis revistas Haus e Viver Bem.

De resto, a Gazeta do Povo estará ao alcance do smartphone, dos tablets e dos desktops. Trata-se de uma realidade irrefreável e que agora mesmo está sendo palmilhada por outros jornais de prestígio em todo o mundo.

REINVENÇÃO

Reconheça-se a ousadia da empresa em reinventar-se como fez ao lançar a edição em formato berliner, em 2015, e agora ao migrar para o digital quase que definitivamente. As sequelas, entretanto, ainda estão por vir.

O projeto, anunciado na quinta-feira (6), aos anunciantes do jornal, em um shopping do Batel, pegou de surpresa a redação do jornal. Mais ainda quando a diretora de unidades de jornais, Ana Amélia Cunha Pereira Filizola, anunciou que a Gazeta do Povo irá mudar de endereço. “Não mais na praça (Carlos Gomes, sua sede histórica)”, disse. Onde então?

Há rumores também de que o parque gráfico será vendido e que a edição de sábado será impressa em uma terceirizada.

OUTROS TEMPOS

São tempos de incerteza. Os efeitos dessa mudança ainda serão sentidos.

Há um número considerável de curitibanos e paranaenses, cuja leitura da edição de papel da Gazeta fazia parte de uma rotina prazerosa – ainda que as notícias não fossem tão prazerosas assim.

O que vem por aí são tempos novos na imprensa.

Bom alertar: tempos novos não são necessariamente tempos bons.

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