Na segunda parte de sua entrevista ao “Encontros do Araguaia“, livro de que sou o organizador (e está na parte final), reunião de depoimentos de ícones da história paranaense contemporânea, o ex-ministro de FHC e ex-presidente da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, deita elogios a Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas. Julga que o velho peemedebista foi um homem de força moral antes de tudo. A ponto de transformar um partido criado pela ditadura militar que se queria servil – o MDB – em legenda de oposição quando ser oposição era muito perigoso.
“Eu avalio que os militares tinham respeito por ele por causa de seu caráter e sua integridade que, certamente, eram comparáveis aos de Tancredo (Neves)”, diz Scalco.
SARNEY EM CENA
Às vésperas da morte de Tancredo, que ocorreria em 21 de abril de 1985, Ulysses reuniu-se com líderes do partido no Instituto do Coração, em São Paulo, para onde Tancredo havia sido transferido, e decidiu-se dar posse a José Sarney, o vice, filiado ao PDS. Estavam presentes, entre outros, Pedro Simon, José Richa, então governador do Paraná, e Pimenta da Veiga.
TEMOR DA REAÇÃO
Não era o que dizia a Constituição, lembra Scalco. Como Tancredo fora eleito no Colégio Eleitoral, mas não tomara posse, era o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, quem deveria assumir a presidência. Mas havia a preocupação de que os militares reagissem. “O fato é que ele abriu mão da presidência da República em nome da estabilidade do país. A falta de ambição de Ulysses garantiu a continuidade do processo democrático”, afirma.
PAI PATRÃO
Indagado se é possível identificar na classe política atual alguém comparável a Ulysses, ele sorri. Scalco é parlamentarista e defende o voto distrital puro, mas acha que o Brasil gosta de patrão. Se há uma liderança incontestável hoje no país? Há uma hipotética. Um Eduardo Cunha do bem. De decisões firmes, tirante toda a negociata e a corrupção.
PARTIDOS SEM FIM
Scalco defende o fim da propagação incontrolável do espectro partidário.
O STF, diz ele, acabou com a cláusula de barreira, que imporia regras aos partidos, alegando cerceamento da liberdade de expressão, e depois posou de maria-arrependida.
AVALIAÇÃO
Gustavo Fruet? Tem postura, tem caráter, mas lhe faltou ousadia. Álvaro Dias? É pouco provável que venha a ser presidente da República. Lidera qualquer pesquisa no Paraná, mas tem pouca inserção em São Paulo. Em contrapartida, parece ganhar votos no Nordeste. É pouco. A seu favor está a lisura. Se houvesse algum deslize da parte dele, financeiro ou político, já teria vindo a público.
RADICAL DE RAIZ
Mas Scalco, que foi coordenador de campanha de Fernando Henrique Cardoso e de Beto Richa, não se presta ao papel de pitonisa. Gosta do que pode ver e não prever. Talvez 2018 seja decisivo. Talvez. De qualquer maneira, toda decisão que for tomada daqui por diante deve ser radical.
Mas radical, na acepção de FHC. Radical porque se deve ir às raízes dos problemas. É assim, e não de outro modo, que se encontram as soluções.
