Para os que se assombram, de modo negativo, com a lista dos livros mais vendidos no gênero ficção, eis um assombro positivo: as principais obras de George Orwell ganharam vida. Nos EUA, as vendas cresceram 10.000%. Em grande parte, em razão do “trumpismo” e dos neologismos que o acompanham: “pós-verdade” e “fato alternativo”, por exemplo. “1984”, a distopia “orwelliana” é a crônica premonitória do republicano de maus bofes.
CONTROLAR O PRESENTE
As regras de mutabilidade, onde se mudava o passado para controlar o presente são facilmente identificáveis nos tuítes que Trump costuma despejar contestando reportagens ou verdades óbvias. Outros conceitos do livro de Orwell e que parecem ensaiar aparição no governo Trump são a política do pensamento (thinkpol) e “os dois minutos de ódio” em que os partidários se reúnem para gritar contra uma imagem ou contra pessoas que pensam diferente. É uma forma amarga da realidade imitar a ficção.
OS BICHOS
Outro livro que ganhou espaço na lista dos mais vendidos é “A Revolução dos Bichos”, uma fábula política que Orwell publicou em 1945, depois de rejeitada por vários editores que viam na história uma sátira cruel ao “aliado” Stalin. É fácil comparar o livro com o PT de Lula. Há ali os condimentos necessários: a revolta contra os homens (a elite), a tomada de poder, a ascensão de um politburo, a máxima de “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” e, ao fim, a melancólica visão dos animais da fazenda de que os líderes se parecem cada vez mais com os opressores homens. A ponto de se confundir.
QUANDO O BOI FALA
A recente operação Carne Fraca pode fazer com que a fábula de Orwell ganhe outra interpretação. É fácil imaginar, por exemplo, que o porquinho líder tenha decidido se unir a jornalistas humanos a fim de frustrar a investigação da Polícia Federal e vender gato por lebre. Gato com prazo de validade vencido! Sim, carne de porco pode ser usada no processamento de embutidos, mas fica valendo o dito: “leis como salsichas, é melhor não ver como elas são feitas”. De outra forma, também para constar no fabulário geral, entende-se a razão pela qual o noticiário guinou-se para o lado do rebanho. O boi falou mais alto.

