Comemorando dez anos de carreira nos palcos, o ator, diretor e produtor Zé Guilherme Bueno está em duas peças no 34º Festival de Curitiba, ambas na Mostra Fringe. Ele é um dos protagonistas do drama Perda Maior, de Patrícia Vilela sob direção de Elias Andreato, ao lado dos atores Alex Slama e Patrícia Vilela, com sessões nos dias 8 e 9 de abril, quarta e quinta, 20h, no Teatro Paulo Autran, no Shopping Novo Batel. Ele também ainda assina a encenação e direção da comédia dramática Visita a Domicílio, ao lado de Miguel Arcanjo Prado, para o texto do argentino Alberto Romero com os atores Juan Tellategui e Cícero de Andrade, que tem sessões 7, 8 e 9 de abril, terça a quinta, às 18h30, no Teatro Paiol.
Nesta entrevista exclusiva, o artista dá detalhes dos dois espetáculos em Curitiba e que terão temporada em São Paulo ainda no primeiro semestre, e reflete sobre este momento especial: “É como olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido, ao mesmo tempo em que celebro o presente, ainda em movimento, ainda em construção. É um momento de muita gratidão e consciência da trajetória”, diz. Leia a seguir.
Qual é sua relação com o Festival de Curitiba e como é participar neste ano?
Zé Guilherme Bueno – Esta é a minha quarta participação no Festival de Curitiba. Estive duas vezes no Teatro Guaíra, em trabalhos dirigidos por Gabriel Villela, e uma no Guairinha, com o espetáculo Tatuagem, dirigido pelo Kleber Montanheiro. Voltar ao festival é sempre muito especial. Trata-se do maior encontro das artes cênicas do país e da América Latina, um espaço de troca, visibilidade e efervescência artística. Estou muito entusiasmado em retornar agora como ator e diretor cênico e fazer parte, mais uma vez, desse acontecimento tão importante para o teatro.
Como é estar em funções diferentes em cada um dos espetáculos?
Zé Guilherme Bueno – Este ano participo do Festival de Curitiba com dois espetáculos, em funções diferentes. Em Visita Domicílio, atuo como diretor ao lado de Miguel Arcanjo, assinando também a encenação do espetáculo. Já no segundo trabalho, a obra Perda Maior, com dramaturgia de Patrícia Vilela e direção de Elias Andreato, estou em cena como ator, integrando o elenco ao lado de Alex Lama e da própria Patrícia. É uma experiência muito potente poder estar no Festival de Curitiba ocupando lugares distintos dentro da criação, tanto na direção quanto na atuação, ampliando meu olhar e minha vivência artística dentro de um festival tão importante.
Com é dirigir Visita a Domicílio e contar essa história?
Zé Guilherme Bueno – Dirigir Visita a Domicílio foi, ao mesmo tempo, uma surpresa e um grande desafio. A cada “re-visita” ao texto, durante o processo, eu me via redescobrindo camadas que ainda não tinham se revelado, o que é natural na criação, mas aqui acontecia de forma especialmente intensa. O texto trabalha com polaridades muito fortes, transitando entre extremos com bastante potência. Um dos principais desafios da encenação foi justamente encontrar o equilíbrio e a fluidez para atravessar esses polos, sem perder a unidade da narrativa. Foi um processo muito instigante, porque exigiu uma escuta fina e um trabalho cuidadoso de linguagem, para que essas transições acontecessem de forma orgânica em cena. No fim, acabou sendo um desafio muito prazeroso, que ampliou bastante o meu olhar sobre a obra.

Qual é o principal recado de Visita a Domicílio?
Zé Guilherme Bueno – O principal recado da peça Visita a Domicílio, na minha visão, é sobre como conflitos e histórias mal resolvidas podem atravessar o tempo e continuar agindo na vida das pessoas. São situações que, por não terem sido elaboradas ou encerradas, acabam influenciando escolhas, relações e caminhos, muitas vezes desviando completamente o curso de uma vida. A peça convida o público a olhar para esses atravessamento, para aquilo que fica em aberto, e a refletir sobre o impacto silencioso que essas questões podem ter ao longo do tempo.
Qual a importância de participar de uma coprodução internacional Brasil-Argentina?
Zé Guilherme Bueno – Participar de uma coprodução internacional independente entre Brasil e Argentina vai muito além da realização de um espetáculo. Desde o início do processo, ficou claro para mim que se tratava também de um compromisso e de uma responsabilidade cultural. É uma oportunidade de encontro real entre diferentes perspectivas, que exige escuta, pesquisa e um olhar atento para a cultura do outro, para que ela não apenas esteja presente, mas verdadeiramente contemplada dentro da obra.
O que o público do Festival de Curitiba pode esperar de Visita a Domicílio?
Zé Guilherme Bueno – O público de Curitiba pode esperar uma história bem contada, com a força de um conto íntimo, daqueles que poderiam acontecer bem diante dos nossos olhos, na janela da frente do próprio prédio. É como se, entre tantas janelas, de um prédio de estúdios desses com duzentos apartamentos, essa fosse uma história possível, real, e que agora ganha forma no palco como um “presente”. O espetáculo é conduzido por reviravoltas que vão surpreendendo ao longo do caminho, até chegar a um desfecho que convida o público a engolir seco e permanecer em reflexão.
Qual a visão da sua encenação para a obra Visita a Domicílio?
Zé Guilherme Bueno – A visão de encenação surgiu a partir de uma conversa muito importante com o ator argentino Juan Tellategui, que idealizou o projeto. Foi nesse diálogo que percebi era fundamental abrir a pesquisa para a cultura argentina que atravessa o espetáculo, não de só de modo formal, mas nos variados veículos de contração de história que temos em apenas um espetáculo. Ao me aprofundar na dramaturgia, entendi que o texto já trazia uma dimensão muito imagética, quase ótica, o que me levou a construir uma encenação baseada em alegorias. A partir daí, fui desenhando um universo que pudesse sustentar essas camadas simbólicas, sem perder o vínculo com o real. Em novas trocas com o Juan, fomos investigando como trazer a Argentina de forma concreta para dentro da cena, na sonoplastia, na iluminação, na atmosfera do espaço. Pensamos, por exemplo, no apartamento onde a ação acontece, em que região ele está, quais são os sons que atravessam esse ambiente, qual é a textura desse cotidiano. Essa localização mais precisa abriu um campo muito fértil de criação. A encenação nasce justamente desse encontro entre o simbólico e o específico, entre a alegoria e o território, criando uma linguagem que ancora o espetáculo e, ao mesmo tempo, expande suas possibilidades.
Agora falemos de Perda Maior, qual é seu personagem?
Zé Guilherme Bueno – Meu personagem é o Lúcio, um homem que se inscreve em um treinamento voltado ao sucesso, algo que, ao mesmo tempo, tem um aspecto quase surreal, mas também muito reconhecível para todos nós. Ele chega extremamente confiante, acreditando que está pronto e que vai vencer esse processo seletivo, custe o que custar. Existe nele uma obsessão por alcançar o sucesso, independentemente dos meios. Ao longo da peça, no entanto, ele é confrontado com as consequências dessa postura. E é só quando isso lhe é colocado de forma direta, quase brutal, que ele começa a perceber o preço das próprias escolhas.
Como é trabalhar sob a direção do Elias Andreato, um nome tão importante de nosso teatro?
Zé Guilherme Bueno – Trabalhar com Elias Andreato é atravessar o tempo. Minha relação com ele começa lá atrás, no meu primeiro espetáculo, há dez anos, quando eu ainda estava em cena como ator, dando meus primeiros passos. Depois, a vida foi desenhando outros caminhos, estive ao lado dele por anos como assistente de direção, aprendendo, observando, amadurecendo o olhar. Mas existe algo de muito simbólico neste trabalho agora. É como um retorno às origens. Voltar a estar em cena com ele, nessa relação de diretor e ator, fecha um ciclo e, ao mesmo tempo, inaugura um novo. É um reencontro carregado de memória, de aprendizado e de afeto.
Como é celebrar seus 10 anos de carreira no teatro em um momento de produção tão intensa?
Zé Guilherme Bueno – Sim, de certa forma, este ano marca dez anos desde a minha primeira oportunidade no circuito profissional. Meu início foi com Esperando Godot, dirigido por Elias Andreato, ao lado de Claudio Fontana, dois grandes que, para mim, representaram uma verdadeira formação. Foi como uma faculdade vivida em cena, ao longo de um ano e meio de processo. A partir dali, minha trajetória foi se desdobrando. Foi nesse contexto que conheci Gabriel Villela, com quem desenvolvi uma relação artística ao longo dos anos, uma espécie de continuação dessa formação, quase como uma nova especialização. E foi também com ele que vivi minha primeira experiência no Festival de Curitiba. Agora, dez anos depois, retornar ao festival com dois espetáculos, em diferentes funções, é muito simbólico. É como olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido, ao mesmo tempo em que celebro o presente, ainda em movimento, ainda em construção. É um momento de muita gratidão e consciência da trajetória.
Visita a Domicílio
7, 8 e 9 de abril, terça a quinta, 18h30, no Teatro Paiol
Compre o ingresso aqui
Perda Maior
8 e 9 de abril, quarta e quinta, 20h, no Teatro Paulo Autran
Compre o ingresso aqui
