Uma aluna de História da Universidade Federal do Amapá foi desligada do curso depois de 15 anos sem se formar. Na Coreia do Sul, um estudante do Ensino Médio não estuda menos de 15 horas por dia. Dos dois lados, parece um exagero. A Coreia do Sul era um país do terceiro mundo há 50 anos, tal como o Brasil. Desde então iniciou uma escalada sem precedentes. No teste internacional de ensino médio ficaram em 11º lugar em ciência. Os brasileiros obtiveram o 63º lugar. A Coreia foi dominada pelo Japão durante 40 anos. Enfrentou uma Guerra Civil, foi dividida ao meio. Sua população, desesperada por proteína, passou a comer cachorros. Hoje sua renda per capita é de 30 mil dólares, o triplo da nacional.

ABORDAGEM IDEOLÓGICA
Os dados mais recentes do Ministério da Educação apontam que 49% dos alunos que entraram na universidade em 2010, abandonaram o curso quatro anos depois. O índice de desistência é de 52,7% nas universidades particulares e de 42,6% nas públicas. É difícil saber o que motiva um aluno a abandonar uma escola pública. O sucateamento das universidades, o despreparo dos professores – indolentes porque estáveis, estáveis porque indolentes –, as greves, as paralisações irresponsáveis, a abordagem ideológica do currículo. Nas particulares, mesmo com o financiamento público oferecido, o abandono é de 52,7%.
OUTRA CONSTITUIÇÃO
Há uma dissintonia grave em curso e ela mostra, entre outras coisas que estamos entregando ao mercado de trabalho, em pleno século XXI, uma geração de desqualificados. Há uma falência do ensino e ela vai além das manifestações populares em defesa das Diretas Já ou da convocação de uma Assembleia Constituinte, o que significaria conceber o inacreditável: uma oitava constituição, tão ampla e anacrônica quanto aquela que foi aprovada em 1988, há quase três décadas.
DEGLUTÍVEIS
Manifestações de estudantes na Coreia do Sul são tão corriqueiras quanto no Brasil. Talvez não se queime pneus nas estradas para impedir o direito de ir e vir ou não se promova cenas vandalismo. De qualquer forma, concentram um grande número de estudantes sem que o governo as acate como uma manifestação deglutível. O debate se faz em cima de propostas e não atrás de banheiros químicos ofertados democraticamente.
CHUCHU NA FEIRA
A universidade deveria ser o espaço privilegiado de debates com a sociedade sobre os rumos do país. Já foi. Não é mais. Há uma militância encardida, o que quer dizer resoluta, impregnando as salas de aula e fazendo valer suas ideias na base do grito. Não raro com violência física ou atos de vandalismo. Dos professores não se espera muito. As universidades foram tomadas por ideólogos defensores de um socialismo obtuso, que não existe mais. Fala-se em burguesia, coletivo e capitalismo como se fosse chuchu na feira. Ai de quem contestar.
PERDÃO LÁ, BANANA AQUI
Detalhe importante nesse cenário de incertezas por que passa o Brasil. Na Coreia do Sul, como no Brasil, o governo se viu enredado em um caso de corrupção. Na Coreia do Sul, como no Brasil, a presidente foi afastada. Na Coreia do Sul, como no Brasil, ela sofreu impeachment. Na Coreia do Sul ela foi processada e pode ser condenada à prisão perpétua. No Brasil, a presidente sequer perdeu seus direitos políticos. Pode ser candidata no ano que vem. Na Coreia do Sul, ela pediu perdão. Aqui ela mandou uma banana.
