quarta-feira, 22 abril, 2026
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Tonelli, uma lição de modéstia e coerência (parte I)

Paulino Motter (*)

Aos 65 anos, Pedro Irno Tonelli vai se aposentar. Esta segunda-feira, dia 1º. de agosto, será o seu último dia de trabalho na Itaipu, encerrando uma colaboração que se estendeu por mais de 13 anos. Seu primeiro “compromisso” já como aposentado está marcado para a próxima quinta-feira: uma pescaria.

É muito provável que Tonelli saia de cena sem ser notado, sobretudo se depender da sua proverbial discrição. Eu creio, no entanto, que vale a pena dizer três ou quatro coisas sobre a sua trajetória, especialmente sobre o período dedicado à Itaipu.

O fato de conhecê-lo há 30 anos e de já estar fora da empresa há mais de um ano me deixam muito à vontade para dar um depoimento bem pessoal. Digo desde já que considero Tonelli um exemplo de modéstia e coerência. Fui seu assessor parlamentar por sete anos, entre 1987 e 1994, até ser demitido por ele em outubro daquele ano, faltando poucos meses para o fim do seu mandato de deputado federal.

ALÉM DOS CARGOS

Sobre Itaipu, o primeiro reconhecimento a ser feito é que Tonelli desempenhou um papel institucional e executou tarefas bem mais relevantes do que sugerem os cargos que ocupou e as atribuições desempenhadas. Ele foi uma referência importante para além da DC. Atuou discretamente com para-raios e bombeiro numa área sujeita a constantes descargas elétricas.

Tonelli deu uma contribuição notável tanto na mediação e resolução de conflitos internos, no âmbito da sua diretoria, como na construção de um novo paradigma de relações institucionais com os movimentos sociais na BP3. Discreto, arguto e absolutamente leal à instituição, sempre que chamado, ofereceu importantes “insights” e sugestões.

Embora não tenhamos vivido nada parecido com a revolução cultural chinesa – que expurgou Deng Xiaoping, o arquiteto da China moderna, e o enviou para tomar conta de uma vara de porcos no interior do país – Tonelli se sujeitou a desempenhar atividades que nem de longe correspondiam às suas experiências pregressas e às suas capacidades, testadas e comprovadas.

AQUICULTURA

Ele foi incumbido da implantação de um programa de aquicultura em tanque-rede no reservatório de Itaipu. Quase sem equipe e com escassos recursos destinados ao projeto “Mais Peixes em Nossas Águas”, Tonelli logrou estruturar a demarcação, licenciamento e regularização dos primeiros parques aquícolas do país, no Lago de Itaipu. Dedicou-se incansavelmente à capacitação e à organização dos pescadores.

Ninguém jamais ouviu dele uma única queixa reclamando mais apoio ao programa. Sempre procurou fazer o seu trabalho da melhor forma possível, mesmo sem dispor dos meios correspondentes. E apresentou resultados bastante satisfatórios. Com estoicismo e disciplina, cumpria todas as missões que lhe eram delegadas, fiel ao ideário ao qual se dedicara durante toda a vida.

Com seu estilo bonachão e hábitos simples, Tonelli estava sempre disponível para um bom papo, acompanhado de um chimarrão. Ele trouxe para Foz do Iguaçu o mesmo estilo de vida que levava em Capanema. Conseguiu a proeza de criar um ambiente semi-rural em plena Vila A, residindo numa casa com um amplo quintal, um pomar que se expandiu para além do seu lote e espaço “silvestre” para as suas colmeias.

Certa feita, eu procurei a Aliança Francesa para propor uma parceria na realização de um evento do Diálogos de Fronteira, creio que com a poeta Alice Ruiz. O Celson estava incomodado com um enxame de abelhas que havia se instalado na varanda da frente. Não tive dúvida de ligar para o Tonelli, que imediatamente se prontificou de passar lá para capturar a colméia.

(CONTINUARÁ)

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