quarta-feira, 6 maio, 2026
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TEMOS CRISES DEMAIS. NÃO É PRECISO CRIÁ-LAS

Michel Temer, Rodrigo Janot, Deltan Dallagnol
Michel Temer, Rodrigo Janot, Deltan Dallagnol

Editorial publicado na terça-feira (23) em “O Estado de S. Paulo” fez soar o alarme. Assim como é preciso quebrar o vidro para apanhar a mangueira em caso de incêndio, talvez fosse de bom consultar o que vai no texto em caso de delação premiada.

Há prejuízos emanados do Ministério Público Federal que já se avolumam. O fato é, como diz o editorial, que a MPF viu na imprensa a caixa de ressonância ideal para atender seus propósitos. De uma hora para outra, e muitas vezes sem embasamento qualquer (lembremos do famoso PowerPoint de Deltan Dalagnol), disparam-se acusações que a imprensa absorve, sem muitas perguntas, e faz publicar.

MAÇÃ PODRE

Imprimiu-se uma imagem de paladinos da Justiça dos membros do Ministério Público. Eles estão longe disso. A recente prisão de Ângelo Goulart Vilela, procurador da República “infiltrado” no Tribunal Superior Eleitoral para municiar o empresário Joesley Batista é prova suficiente de que vestais não há.

O editorial lembra que a sofreguidão dos procuradores é tal que “as manchetes e os noticiários estão reproduzindo” o que são apenas devaneios investigatórios e não provas. “Assim, quase todos os políticos que em algum momento receberam dinheiro de empresas são, por definição, arrolados como corruptos – e então confirma-se a tese do Ministério Público de que o mundo político está podre”.

SEM AVAL

Mesmo quando o erro de interpretação é notório, a imprensa recusa-se a admiti-lo. Ora, o presidente Michel Temer jamais deu aval ao pagamento de propina a Eduardo Cunha. A “tradução” desse trecho do grampo coube ao procurador-geral Rodrigo Janot. O que foi publicado em “O Globo”, dias depois, foi produto de notícia vazada. A interpretação foi incluída no pacote e só desmentida depois quando o áudio foi liberado e Inês já era morta.

Mesmo assim, imprimiu-se a primeira versão e é difícil fazer com que uma notícia perca o primeiro impacto. Seria o papel da imprensa, mas ela ainda vive sob o efeito mesmerizador do Ministério Público.

A IMPRENSA NÃO TEM DESCULPAS

Diz o editorial: “Atribuir as denúncias ao Ministério Público não é o bastante, do ponto de vista ético, para isentar a imprensa de responsabilidade por esses danos, pois são os jornais que decidem dar ou não dar destaque a acusações que ainda carecem de confirmação, especialmente quando o que está em jogo é a estabilidade do país”. A imprensa deixou-se seduzir a tal ponto que o Ministério Público se sentiu à vontade também para promover um velado “caça às bruxas”. O caso do blogueiro Reinaldo Azevedo, de “Veja”, grampeado em conversa com Andréa Neves – irmã de Aécio – é o de maior repercussão recente. Ainda que o diálogo não evidenciasse um crime (e ainda assim seria uma conversa entre o jornalista e sua fonte), ele não poderia ser anexado a um inquérito da PF sem que fossem observadas as regras constitucionais. Foi um acinte. Por causa disso, o blogueiro demitiu-se.

UMA REFLEXÃO

“É justamente em momentos tão graves como esses que o país e suas instituições – a imprensa entre elas – devem fazer profundas reflexões sobre a responsabilidade de cada um. Já temos crises em abundância. Não há necessidade de que se fabriquem mais”.

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