sábado, 2 maio, 2026
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Serviços de água e esgotos de Curitiba e a Guerra de Canudos

Por Zair Schuster (*)

Cena de Canudos
Cena de Canudos

Há 119 anos terminava um dos maiores morticínios praticados em território brasileiro: a Guerra de Canudos (1896/1897). Trinta mil mortos, dos quais, cinco mil militares. O Paraná estava longe desse conflito, capitaneado por Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Antônio Conselheiro, registrado magistralmente por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, em 1902.

Curitiba estava longe daquele imbróglio, mas deixou amargas consequências para dois empresários curitibanos, Mollet & Costa, que se propuseram a resolver o então problema do precário serviço de abastecimento público de água da Capital paranaense.

DUAS EPIDEMIAS

Naquela época, o Governo vivia às tontas diante da angustiante situação dos serviços de água e de esgotos de Curitiba. Já haviam ocorrido duas epidemias de febre tifoide decorrente dessa situação. A Capital crescia e a questão não tinha solução à vista. Tentativas e fracassos se sucediam, até que o então prefeito Cícero Gonçalves Marques resolveu contratar Mollet & Costa para apresentar estudos definitivos para o abastecimento de água e da rede coletora de esgotos, dando-lhes um prazo para tal. O custo estipulado para os estudos e obras foi de 5.000$000 (cinco mil réis) e o contrato foi lavrado no dia 04 de setembro de 1897.

A GUERRA

Em julho do ano seguinte, Mollet & Costa pediram à Câmara Municipal de Curitiba prorrogação do prazo para apresentar o trabalho e começar as respectivas obras, alegando dificuldades para levantamento do capital necessário. A Comissão Municipal de Obras Públicas da Câmara, ao examinar o pedido deu o seguinte despacho ao requerimento dos empresários:

“…tomarem na devida consideração as minuciosas ponderações feitas pelos empresários  Mollet & Costa, e considerando as graves perturbações havidas no país, como a Guerra Civil de Canudos, e o acontecimento de cinco de novembro do ano passado, pondo em sério risco a vida do Sr. Presidente da República e eliminando pelo assassinato de um dos mais dignos e leais servidores da Pátria, o benemérito Marechal Machado Bittencourt, abalarão (sic) profundamente o crédito de nosso país no estrangeiro, a ponto dos títulos brasileiros serem cotados a 43% e a taxa cambial descer a 05 não somente dificultando, mas impossibilitando essa circunstância a organização de empresas que vierem com capitais estrangeiros a operar em nosso País”.

SEGUNDO TEMPO

Segundo o mesmo documento, tais fatos (a Guerra de Canudos, inclusive) obstaram “aos contratantes o levantamento de capitaes (sic) no estrangeiro para a realização dos serviços contratados”.

Findo o prazo, Mollet & Costa pediram nova prorrogação. Até então, não havia nem estudos, nem obras. E deram com os burros n’água: os camaristas curitibanos declararam a caducidade do contrato, pelo “não cumprimento das cláusulas”, segundo o relator Coronel Antonio Leopoldo dos Santos, e autorizaram o “cidadão Cícero Gonçalves Marques prefeito municipal da Capital do Estado do Paraná” a lançar edital de concorrência para novas propostas para o abastecimento de água de Curitiba.

ÁGUA IMUNDA

Negócio gorado, pois em relação à questão, o Governo municipal continuou submetido ao seu “leito de procusto”; e a população continuou bebendo água de poços imundos de fundo de quintal por mais alguns anos, situação que foi amenizada a partir da Lei 506, de abril de 1903, sancionada pelo presidente do Estado, Francisco Xavier da Silva; a lei autorizava o governo “a contractar pelo meio que julgar mais conveniente o serviço de abastecimento d’água e de exgottos na cidade de Curityba”.

Mas, aí é outra história.

(OBS: o acontecimento a que se refere o documento (5 de novembro) é o atentado ao então presidente Prudente de Moraes por um soldado do 10º Batalhão de Infantaria, e o assassinato do zair_schusterministro da Guerra marechal Machado Bittencourt).

(*) Zair Schuster é jornalista, bacharel em Direito e pesquisador da história do saneamento no Paraná.

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